“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”

Dr. Ney Leal

📖 Leitura recomendada: este artigo faz parte do nosso guia completo sobre dor nas costas, causas, sintomas e tratamentos para todos os tipos de dor na coluna.

Lombalgia, a famosa dor na parte baixa das costas, é a causa número um de incapacidade no mundo[1]. Estima-se que até 80% das pessoas terão pelo menos um episódio ao longo da vida[2]. Se você está lendo isso com dor nas costas agora, saiba que não está sozinho, e que existem caminhos eficazes pra melhorar.

Neste artigo, vou te explicar o que é lombalgia, por que ela acontece, quais os tipos, quando se preocupar e como funciona o tratamento baseado nas melhores evidências científicas.

O que é lombalgia?

Lombalgia é o termo médico pra dor na região lombar, a parte inferior das costas, entre as costelas mais baixas e o início das nádegas. Os mais velhos costumam chamar de “dor nas cadeiras”. A dor pode variar de um incômodo leve até uma intensidade que impede qualquer movimento.

A coluna lombar é formada por cinco vértebras (L1 a L5) que sustentam boa parte do peso do corpo. Pense nela como a base de uma torre: se a base fica sobrecarregada ou desalinhada, toda a estrutura sofre. Discos intervertebrais, músculos, ligamentos e nervos trabalham juntos nessa região, e quando qualquer um desses elementos se irrita, a dor aparece.

Lombalgia, anatomia da coluna lombar

Tipos de lombalgia

Lombalgia aguda

Dura menos de 6 semanas. É a mais comum, geralmente causada por esforço, postura inadequada ou movimento brusco. A maioria melhora espontaneamente em dias ou semanas, com cuidados simples.

Lombalgia subaguda

Dura entre 6 e 12 semanas. Se a dor chegou aqui, precisa de atenção. É o momento de procurar ajuda pra evitar que a dor se torne crônica.

Lombalgia crônica

Persiste por mais de 12 semanas. Nesse ponto, a dor não é mais apenas um sintoma, ela se tornou uma condição em si. O sistema nervoso pode estar sensibilizado, amplificando sinais que antes não eram sentidos como dor. É quando o tratamento multidisciplinar faz mais diferença. Pra entender melhor esse processo, leia nosso guia sobre o que é dor crônica.

Tipos de lombalgia: aguda, subaguda, crônica

Causas da lombalgia

Causas mecânicas (mais comuns, cerca de 90% dos casos)[3]: distensão muscular, entorse ligamentar, degeneração dos discos gelatinosos que servem de almofada entre uma vértebra e outra, artrose das articulações, e por aí vai. Essas causas mecânicas não precisam de cirurgia na grande maioria dos casos.

Hérnia de disco: quando a parte de dentro, mais mole, do disco intervertebral se desloca e comprime um nervo. Pode causar a dor popularmente conhecida como ciática, que irradia pra perna como se um raio descesse. Mesmo assim, a maioria melhora sem cirurgia.

Estenose do canal medular: é o estreitamento do canal por onde passam os nervos dentro da coluna. Mais comum em pessoas acima dos 60 anos, pode ser causada por artrose nas articulações ou quando uma vértebra escorrega um pouco mais pra frente do que a de baixo, estreitando o canal por onde passam medula e nervos.

Espondilolistese: esse é o nome técnico do deslizamento de uma vértebra sobre a outra, causa frequente de estenose do canal medular.

Dor na articulação sacroilíaca: essa articulação fica na base da coluna, entre o sacro e o osso ilíaco. A dor pode ser confundida com lombalgia, mas o tratamento é diferente.

Fatores de risco importantes: sedentarismo, obesidade, tabagismo, estresse emocional, posturas ruins por muito tempo, trabalhos com carga física intensa, e a própria anatomia do paciente. Costumo explicar no consultório: nossa coluna tem três curvas principais normais, a lordose do pescoço, a cifose na altura do tórax e outra lordose na região lombar. Isso é igual em praticamente todo ser humano.

Mas (sempre tem um “mas”) cada pessoa é única. Alguns têm as curvaturas mais retas, outros mais acentuadas, e isso pode ser fator importante na origem da dor. Além dessas curvaturas normais, o paciente ainda pode ter desvios que não deveriam existir, as chamadas escolioses, que são desvios laterais da coluna. Olha as ilustrações abaixo pra ficar mais fácil de visualizar.

Curvaturas normais da coluna e escoliose

Sinais de alerta: quando a lombalgia precisa de urgência

A maioria dos episódios de lombalgia é benigna. Mas existem sinais que exigem avaliação imediata:

  • Perda de controle da bexiga ou intestino
  • Fraqueza progressiva nas pernas
  • Dormência na região genital
  • Dor após trauma (queda, acidente)
  • Febre associada à dor lombar
  • Perda de peso inexplicada
  • Dor que piora à noite e não alivia com repouso

Se você tem algum desses sintomas, procure atendimento médico imediato.

Diagnóstico: por que o exame não conta a história toda

Na maioria dos casos, o diagnóstico da lombalgia é clínico, feito pela conversa e pelo exame físico. Exames de imagem (ressonância, raio-X) são indicados quando há sinais de alerta, quando a dor não melhora depois de 4 a 6 semanas de tratamento, ou quando há suspeita de outra causa específica.

A cena mais comum do meu consultório

A ocorrência mais comum no consultório é o paciente que chega, dá bom dia e já entrega os exames: “trouxe a minha ressonância, eu tenho uma hérnia.”

Eu sempre opto por pedir pra paciente me contar primeiro o que está doendo, antes de abrir qualquer exame. E na maior parte das vezes os achados na ressonância não têm nenhuma relação com a dor que ela sente. A gente chama isso de “achado incidental”, são alterações compatíveis com a idade.

A analogia da foto 3×4

Quando o radiologista vê uma imagem pra dar o laudo, ele deve descrever absolutamente tudo o que está vendo. Mas nem sempre o que aparece descrito tem significado clínico ou explica a dor do paciente.

É como se eu pedisse pra alguém descrever uma foto 3×4 minha. A pessoa vai descrever rugas, cabelo e barba com fios brancos, mesmo que isso não tenha significado nenhum, seja absolutamente normal do envelhecimento. Na coluna acontece a mesma coisa, e a gente chama de “degenerações compatíveis com a idade”.

O que a ciência confirma

Não é achismo meu. Uma revisão sistemática analisou exames de imagem da coluna em pessoas sem nenhuma dor e encontrou alta prevalência de “achados” como degeneração discal, protrusões e bicos de papagaio, em todas as faixas etárias[4]. Em pessoas de 50 anos sem sintoma algum, 80% têm degeneração de disco na ressonância. Aos 80 anos, é 96%.

Outro estudo, esse randomizado, dividiu pacientes com lombalgia aguda em dois grupos: um recebeu o resultado da ressonância em 48 horas, o outro ficou cego ao laudo. Resultado: receber o laudo não melhorou o desfecho clínico e foi associado a uma pior sensação de bem-estar[5]. Ou seja, saber em detalhes o que aparece no exame, quando aquilo não muda a conduta, pode até atrapalhar a recuperação.

Por isso, tratar a imagem em vez do paciente é um dos erros mais comuns na abordagem da lombalgia. O diagnóstico bom começa ouvindo a história, não abrindo o envelope da ressonância.

Tratamento da lombalgia

Fase aguda

Mantenha-se ativo: repouso absoluto piora[6]. Caminhe, faça atividades leves. A dor pode limitar alguns movimentos, e tudo bem, mas ficar na cama piora o quadro.

Medicamentos: anti-inflamatórios por curto período, analgésicos, relaxantes musculares quando há espasmo. Sempre com orientação médica.

Calor local: bolsa de água quente ou compressa morna na região lombar ajuda a relaxar a musculatura.

Tratamento contínuo e prevenção

Exercício físico: é a ferramenta que melhor funciona no tratamento e na prevenção da lombalgia[7]. Veja nosso guia completo sobre exercício físico e dor crônica. Fortalecimento do core (musculatura abdominal e lombar), pilates, natação e caminhada são excelentes opções. Mas comece devagar. Se você resolver fazer numa semana tudo o que não fez no resto da vida, a chance de se machucar é grande. Fazer com frequência (3 a 5 vezes por semana) importa mais do que intensidade ou tipo de exercício.

Fisioterapia: exercícios direcionados, terapia manual e orientação postural. Fundamental pra casos que não melhoram nas primeiras semanas.

Cuidados com peso, postura e sono: manter peso saudável, ajustar a ergonomia do trabalho e dormir bem são pilares do tratamento. Se você acorda com dor lombar pela manhã, confira nossas orientações sobre dor nas costas ao acordar.

Quando o tratamento conservador não basta

Se a lombalgia persiste por mais de 12 semanas, procedimentos com nomes esquisitos como bloqueios das articulações da coluna, bloqueios epidurais e radiofrequência podem ser indicados. A cirurgia é reservada pra casos muito específicos: hérnia de disco com prejuízo neurológico, estenose grave, instabilidade vertebral, entre outros.

Tratamento da lombalgia, abordagem multimodal

Lombalgia e trabalho

A lombalgia é a principal causa de afastamento do trabalho no Brasil e no mundo. Só aqui foram mais de 237 mil afastamentos em 2025. Se a sua dor lombar está afetando sua capacidade de trabalhar, não ignore. Quanto mais cedo o tratamento começa, maior a chance de resolução completa.

Quando procurar um especialista em dor

Se a sua lombalgia dura mais de 4 semanas sem melhora, está piorando, irradia pra perna, ou está limitando sua vida, é hora de procurar um médico especialista em dor. Diagnóstico correto e plano de tratamento adequado mudam completamente o quadro.

Conhece alguém que sofre com dor lombar? Compartilhe este artigo. Informação de qualidade pode ser o primeiro passo pra essa pessoa buscar ajuda.

Referências científicas

  1. GBD 2021 Low Back Pain Collaborators. Global, regional, and national burden of low back pain, 1990-2020, its attributable risk factors, and projections to 2050: a systematic analysis of the Global Burden of Disease Study 2021. Lancet Rheumatol. 2023;5(6):e316-e329. PubMed
  2. Walker BF. The prevalence of low back pain: a systematic review of the literature from 1966 to 1998. J Spinal Disord. 2000;13(3):205-217. PubMed
  3. Deyo RA, Weinstein JN. Low back pain. N Engl J Med. 2001;344(5):363-370. PubMed
  4. Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811-816. PubMed
  5. Ash LM, Modic MT, Obuchowski NA, Ross JS, Brant-Zawadzki MN, Grooff PN. Effects of diagnostic information, per se, on patient outcomes in acute radiculopathy and low back pain. AJNR Am J Neuroradiol. 2008;29(6):1098-1103. PubMed
  6. Dahm KT, Brurberg KG, Jamtvedt G, Hagen KB. Advice to rest in bed versus advice to stay active for acute low-back pain and sciatica. Cochrane Database Syst Rev. 2010;(6):CD007612. PubMed
  7. Hayden JA, Ellis J, Ogilvie R, et al. Exercise therapy for chronic low back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2021;9(9):CD009790. PubMed

Perguntas frequentes sobre lombalgia

Lombalgia tem cura?

A maioria dos episódios de lombalgia aguda melhora sozinha em dias ou semanas. Quando a dor se torna crônica, o foco passa a ser controlar a dor e recuperar qualidade de vida. Com o tratamento certo, muitos pacientes voltam a ter uma vida normal. E quanto mais cedo você começa, melhor.

Quando devo procurar um médico para dor lombar?

Procure atendimento médico se a dor durar mais de 4 semanas sem melhora, se estiver piorando, se irradiar para a perna, ou se houver sinais de alerta como perda de força nas pernas, alteração no controle da bexiga ou intestino, febre ou perda de peso inexplicada. Nesses casos, a avaliação deve ser imediata.

Qual exame devo fazer para dor lombar?

Na maioria dos casos, o diagnóstico é clínico, feito pela conversa e pelo exame físico. Exames de imagem como ressonância ou raio-X entram quando há sinais de alerta, quando a dor não melhora após 4 a 6 semanas, ou quando existe suspeita de algo mais específico. Detalhe importante: alterações em exames de imagem são comuns com a idade e nem sempre explicam a dor que você sente.

Exercício piora a lombalgia?

Pelo contrário. Exercício físico é a melhor ferramenta pra tratar e prevenir a lombalgia. Fortalecimento do core, pilates, natação e caminhada são ótimas opções. O segredo é começar devagar e manter a regularidade. Fazer exercício de 3 a 5 vezes por semana é mais importante do que a intensidade. Repouso absoluto, por outro lado, tende a piorar o quadro.

Tenho hérnia de disco no exame, isso explica a minha dor lombar?

Não necessariamente. Estudos mostram que muita gente sem dor nenhuma tem hérnia ou degeneração na ressonância. São os chamados “achados incidentais”, alterações compatíveis com a idade. O que define se a hérnia é a causa da sua dor é a correlação entre o achado e os sintomas, feita pelo médico no exame clínico. Tratar a imagem em vez do paciente é um dos erros mais comuns na lombalgia.

Repouso ajuda na crise de dor lombar?

Repouso prolongado piora. Os primeiros 1 ou 2 dias de movimento mais limitado são compreensíveis quando a dor está muito forte, mas ficar na cama por dias atrapalha a recuperação. Manter-se em movimento, mesmo com atividades leves como caminhada, é a recomendação baseada em evidência.


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Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.

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