A dor na articulação sacroilíaca é uma das causas mais subdiagnosticadas de dor lombar. Estima-se que ela esteja por trás de até 30% dos casos crônicos de dor nas costas, e ainda assim muitos pacientes passam anos pulando de médico em médico sem receber o diagnóstico correto. Este guia completo sobre dor na articulação sacroilíaca explica, em linguagem simples, o que é essa dor, como ela é diagnosticada (com destaque para o Fortin Finger Test e outros testes provocativos) e quais são as 4 opções de tratamento que realmente funcionam.1

📖 Leitura recomendada: a dor sacroilíaca é frequentemente confundida com outros tipos de dor nas costas — veja nosso guia completo para entender as diferenças.

O que é a articulação sacroilíaca

Imagine a sua bacia como uma ponte de pedra antiga. As duas pernas dessa ponte são os ossos do quadril (ilíacos), e o bloco central, que apoia toda a coluna, é o sacro. O ponto onde o sacro encontra cada um dos ilíacos é a articulação sacroilíaca. Diferente de uma articulação móvel como o joelho, a sacroilíaca quase não se mexe. O trabalho dela é absorver impacto e transferir o peso do tronco para as pernas, como um amortecedor entre a coluna e a bacia.

Quando essa articulação fica inflamada, instável ou desalinhada, ela vira uma fonte de dor crônica que costuma ser confundida com problemas de coluna lombar, hérnia de disco ou ciática. Se quiser comparar com outras origens, vale ler os textos sobre lombalgia e hérnia de disco.

Dor na articulação sacroilíaca: visão geral

Sintomas da dor na articulação sacroilíaca

O sintoma mais clássico é uma dor localizada bem na parte de baixo das costas, lateralmente, logo abaixo da linha do cinto. Muitos pacientes apontam com um dedo para o ponto exato. Outros sinais comuns:

  • Dor que piora ao ficar sentado por muito tempo, especialmente em superfícies duras
  • Dor ao levantar de uma cadeira ou sair do carro
  • Dor ao subir escadas ou ao virar na cama
  • Sensação de “travamento” da bacia ao acordar
  • Dor que pode irradiar para a nádega, virilha ou parte posterior da coxa, mas raramente passa do joelho
  • Piora ao colocar peso sobre a perna do lado afetado

É comum que a pessoa descreva a dor como uma fisgada profunda em um ponto específico, diferente da dor lombar mais difusa.2

Causas da dor na articulação sacroilíaca

A dor sacroilíaca pode aparecer de formas diferentes. As causas mais frequentes que vejo no consultório são:

  • Pós-gravidez: durante a gestação, hormônios como a relaxina afrouxam os ligamentos da bacia para preparar o parto. Em algumas mulheres essa frouxidão persiste e gera dor
  • Pós-cirurgia de coluna: pacientes que fizeram artrodese lombar têm risco aumentado, porque a sacroilíaca passa a absorver mais carga
  • Trauma: queda de cavalo, queda de escada, acidente de carro
  • Sobrecarga repetitiva: corredores, jogadores de futebol, profissões que exigem ficar muito tempo em pé
  • Doenças inflamatórias: espondilite anquilosante e outras espondiloartrites
  • Diferença de comprimento das pernas ou alterações posturais crônicas

Um estudo francês publicado em 2020 acompanhou 94 pacientes com dor após artrodese lombar e encontrou que, em 9 de cada 10 casos, a dor que sobrava vinha justamente da articulação sacroilíaca, comprovada por bloqueio anestésico.3

Como o diagnóstico da dor na articulação sacroilíaca é feito

Aqui está o ponto mais delicado. A ressonância magnética e a tomografia raramente mostram alterações específicas na sacroilíaca, exceto em casos de doença inflamatória avançada. Por isso, o diagnóstico é principalmente clínico, baseado em exame físico cuidadoso e em testes provocativos que reproduzem a dor. O StatPearls (NIH) resume bem essa abordagem.

Fortin Finger Test

Esse é o teste mais simples e curiosamente um dos mais úteis. O médico pede que o paciente aponte com um único dedo o ponto exato onde mais dói. Quando o paciente coloca a ponta do dedo a até 1 centímetro abaixo e medialmente da espinha ilíaca póstero-superior (aquela proeminência óssea que dá pra sentir abaixo da cintura, atrás), e consegue repetir esse mesmo ponto duas vezes, o teste é considerado positivo.

O nome vem do Dr. Aaron Fortin, que descreveu o teste nos anos 1990. Apesar de parecer trivial, ele tem boa correlação com dor confirmada por bloqueio anestésico da articulação. Pesquisadores americanos publicaram em 2025 uma série de casos mostrando que pacientes selecionados pelo Fortin Finger Test combinado com o teste de FABER tiveram bom alívio com infiltração da sacroilíaca, com média de 76% de melhora quando guiada por raios-x ao vivo.4

Outros testes provocativos importantes

Nenhum teste isolado fecha o diagnóstico. Por isso costumamos usar uma bateria de manobras e considerar o diagnóstico provável quando pelo menos três delas reproduzem a dor:

  • Teste de FABER (ou Patrick): o paciente deita de barriga para cima, dobra o joelho e cruza o tornozelo sobre o joelho oposto, formando um número 4. O médico pressiona suavemente o joelho dobrado para baixo. Dor reproduzida na sacroilíaca é sugestiva
  • Teste de compressão: paciente deitado de lado, o médico aplica força sobre a crista ilíaca de cima para baixo
  • Teste de distração (gapping): paciente deitado de costas, o médico empurra as duas espinhas ilíacas ântero-superiores para fora, separando a bacia
  • Teste de Gaenslen: o paciente deita na borda da maca com uma perna pendurada para fora, enquanto a outra é dobrada contra o peito. Isso provoca uma força de torção na sacroilíaca
  • Thigh thrust: paciente deitado, joelho dobrado a 90 graus, o médico empurra o fêmur para baixo, transmitindo carga axial para a articulação

Uma metanálise publicada no Journal of Orthopaedic and Sports Physical Therapy avaliou clusters desses testes e concluiu que eles são especialmente úteis para excluir a sacroilíaca como causa da dor (com 92% de certeza quando todos são negativos), mas são menos precisos para confirmar quando positivos.5

Bloqueio diagnóstico

O padrão-ouro para confirmar que a dor vem mesmo da sacroilíaca é a injeção de anestésico local dentro da articulação, geralmente guiada por ultrassom ou raios-x ao vivo. Quando o paciente apresenta redução de mais de 70% da dor nas primeiras horas após a injeção, fica praticamente confirmado que aquela articulação é a fonte do problema.6 Saiba mais sobre bloqueio de dor.

Tratamento da dor na articulação sacroilíaca: 4 opções eficazes

O tratamento segue uma escada, do mais simples ao mais invasivo, sempre individualizado. Pense nessa escada como uma progressão: a maioria dos pacientes melhora nos primeiros degraus, sem precisar subir até o topo.

1. Tratamento conservador

  • Educação e orientação postural: entender por que dói já reduz o medo e melhora a colaboração com o tratamento
  • Fisioterapia direcionada: fortalecimento do core, glúteos e estabilizadores pélvicos
  • Cinta pélvica: especialmente útil em mulheres no pós-parto
  • Anti-inflamatórios em ciclos curtos, sob orientação médica
  • Terapia manual realizada por fisioterapeutas treinados

De acordo com uma revisão publicada no American Family Physician, esse pacote conservador resolve a maioria dos casos sem necessidade de procedimentos.1

2. Infiltração com corticoide

Quando o tratamento conservador não é suficiente, uma infiltração intra-articular com anestésico e corticoide pode dar alívio importante. Idealmente é feita guiada por imagem para garantir que a medicação chega dentro da articulação.

3. Radiofrequência

Para pacientes que respondem bem ao bloqueio mas a melhora não dura, a radiofrequência dos ramos nervosos que inervam a sacroilíaca pode oferecer alívio mais prolongado, em geral de 6 a 12 meses, podendo ser repetida. Saiba mais sobre radiofrequência para dor.

4. Cirurgia de fusão sacroilíaca

Reservada para casos refratários, em pacientes muito selecionados. É uma cirurgia minimamente invasiva, mas com indicação criteriosa, sempre como último recurso.

Causas da dor sacroilíaca

Quando procurar um especialista em dor

Se você convive com dor lombar baixa há mais de 3 meses, especialmente do tipo “dor que aponta com o dedo” e que piora ao sentar ou ao trocar de posição, vale procurar um médico especialista em medicina da dor. O diagnóstico correto da sacroilíaca abre portas para tratamentos eficazes e evita anos de exames desnecessários.

Perguntas frequentes

Dor sacroilíaca aparece em exames de imagem?

Em geral não. Ressonância e tomografia costumam ser normais. O diagnóstico é clínico, baseado em exame físico, testes provocativos como o Fortin Finger Test e, quando necessário, bloqueio anestésico da articulação.

Quanto tempo leva para a dor sacroilíaca melhorar?

Depende da causa. Casos pós-parto costumam melhorar em semanas com cinta pélvica e fisioterapia. Casos crônicos podem precisar de meses de reabilitação combinada com infiltrações. O importante é não desistir nas primeiras semanas.

Fortin Finger Test sozinho fecha o diagnóstico?

Não. Ele é um excelente ponto de partida e tem boa correlação com a sacroilíaca como fonte da dor, mas o ideal é combinar com outros testes provocativos (FABER, compressão, distração, Gaenslen, thigh thrust) e, em casos duvidosos, com bloqueio anestésico guiado por imagem.

A infiltração na sacroilíaca dói?

O procedimento é feito com anestesia local na pele e, com agulhas finas, geralmente é bem tolerado. A maior parte dos pacientes relata desconforto mínimo durante a infiltração e alívio significativo nas horas seguintes.

Em resumo

A dor na articulação sacroilíaca é mais comum do que se imagina e merece um olhar atento. Um exame físico bem feito, com Fortin Finger Test e os outros testes provocativos, costuma ser mais útil do que pilhas de exames de imagem. E o tratamento, quando direcionado, funciona bem na grande maioria dos casos. Se você se identificou com os sintomas descritos aqui, converse com um especialista em dor.

As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem a avaliação médica individual. Procure sempre um profissional para diagnóstico e tratamento.

Referências

  • 1. Newman DP, Soto AT. Sacroiliac Joint Dysfunction: Diagnosis and Treatment. Am Fam Physician. 2022;105(3):239-245. PMID 35289578
  • 2. Cohen SP, et al. Sacroiliac joint pain: a comprehensive review of epidemiology, diagnosis and treatment. Expert Rev Neurother. 2013;13(1):99-116. PMID 23253394
  • 3. Bronsard N, et al. Sacroiliac joint syndrome after lumbosacral fusion. Orthop Traumatol Surg Res. 2020;106(6):1233-1238. PMID 32900669
  • 4. Hasoon J, et al. Evaluation of Landmark-Based and Fluoroscopic-Guided Sacroiliac Joint Injections. Orthop Rev (Pavia). 2025. PMID 40860249
  • 5. Saueressig T, et al. Diagnostic Accuracy of Clusters of Pain Provocation Tests for Detecting Sacroiliac Joint Pain. J Orthop Sports Phys Ther. 2021;51(9):422-431. PMID 34210160
  • 6. Han CS, et al. Low back pain of disc, sacroiliac joint, or facet joint origin: a diagnostic accuracy systematic review. EClinicalMedicine. 2023;59:101960. PMID 37096189

Perguntas frequentes sobre articulação sacroilíaca

Dor na articulação sacroilíaca sempre precisa de cirurgia?

Não. A grande maioria dos casos melhora com tratamento conservador bem feito e, quando necessário, bloqueio ou radiofrequência. Cirurgia fica para os casos refratários, depois de todas as opções menos invasivas terem sido esgotadas.

Quanto tempo dura o alívio do bloqueio da articulação sacroilíaca?

Varia bastante. Alguns pacientes ficam semanas ou poucos meses melhores, outros chegam a 6 meses ou mais. A resposta ao bloqueio também ajuda a planejar a radiofrequência, que costuma dar alívio mais prolongado.

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Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.

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