“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”

Dr. Ney Leal

Você fez uma ressonância magnética com aquela expectativa de finalmente ter uma resposta. O laudo chegou, tudo “dentro dos limites da normalidade”, e mesmo assim a dor continua firme. Você sai do consultório com a sensação de estar inventando, ou pior, de que ninguém vai acreditar na sua dor porque o exame não mostrou nada.

Essa é uma das situações mais comuns no consultório de um especialista em dor. E a resposta, direta, é: sua dor é real. O problema não é que o exame falhou em detectar o que está errado. O problema é que a origem da sua dor pode estar em lugares que a ressonância magnética simplesmente não alcança.

Sua dor é real, mesmo que a ressonância magnética esteja limpa

A primeira coisa que preciso te dizer, como médico especialista em dor, é que a ausência de achado na ressonância magnética não significa que você está imaginando dor. Ela significa que a origem da sua dor pertence a um grupo de condições que não se vê em imagem.

A medicina moderna reconhece três grandes mecanismos de dor:[3]

Dor nociceptiva, causada por lesão de tecido (corte, fratura, hérnia que comprime nervo). Essa é a que a gente espera ver em exame.

Dor neuropática, causada por lesão direta do nervo (neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética). Parte dessa dor aparece em exame, parte não.

Dor nociplástica, causada por alteração do processamento da dor no sistema nervoso, sem lesão tecidual ou neural identificável. Essa não aparece na ressonância magnética, porque não há o que mostrar estruturalmente. O problema está no software, não no hardware.

Boa parte das pessoas com dor crônica e exame “limpo” se encaixa nesse terceiro grupo, ou numa combinação dos três.

Os 3 mecanismos de dor: nociceptiva, neuropática e nociplástica

O que a ressonância magnética realmente mostra, e o que ela não mostra

A ressonância magnética é um exame poderoso, mas é preciso entender seus limites. Ela é excelente para visualizar:

Estruturas ósseas e articulares, discos intervertebrais, músculos e tendões em estado de inflamação, tumores, infecções, sangramentos, lesões agudas extensas.

Por outro lado, a ressonância magnética não consegue enxergar:

A atividade do sistema nervoso (hipersensibilidade neural). Pontos-gatilho miofasciais, que são contraturas microscópicas dentro dos músculos. Disfunções funcionais do movimento. Fatores emocionais e psicossociais. Alterações químicas locais (sem inflamação visível). Neuropatia de fibras finas. Dor funcional sem substrato orgânico.

Ou seja, pedir uma ressonância magnética esperando que ela explique qualquer dor é como pedir uma radiografia para avaliar o seu humor. O exame é ótimo no que ele faz, mas ele tem limites claros.

O que a ressonância magnética mostra e o que ela não mostra

Achados que aparecem em pessoas sem dor

Aqui entra um dado que muda a forma como médicos e pacientes deveriam olhar exames de imagem. Uma revisão sistemática da Mayo Clinic analisou achados de ressonância magnética em pessoas sem nenhuma dor nas costas.[6] Os resultados são impressionantes:

Degeneração discal apareceu em 37% das pessoas com 20 anos e em 96% das pessoas com 80 anos, sem nenhuma queixa de dor. Protrusão discal esteve presente em 29% das pessoas aos 20 anos e em 43% aos 80 anos. Abaulamento discal aparece em 30% aos 20 anos e em 84% aos 80 anos.

Ou seja, à medida que envelhecemos, é quase impossível fazer uma ressonância magnética de coluna e não encontrar “alguma coisa”. Esses achados são, na maioria das vezes, marcas normais da passagem do tempo, parecidas com rugas na pele ou fios de cabelo brancos. Nem todo achado explica a dor.

Uma meta-análise mais recente mostrou que protrusão, extrusão e alteração Modic tipo 1 são, sim, mais comuns em quem tem dor. Mas outros achados muito citados em laudos, como fissura anular, estenose central e espondilolistese leve, têm prevalência semelhante em quem tem dor e em quem não tem.[1]

Na prática clínica, a pergunta certa não é “o exame mostrou algo?”. A pergunta certa é “o que está no exame tem correlação com o que a pessoa sente?”.

Achados de ressonância magnética em pessoas sem dor nenhuma, por idade

Sensibilização central: quando o sistema nervoso amplifica a dor

Imagine um alarme de incêndio calibrado para disparar ao menor traço de fumaça. Depois de muitos disparos, o sensor fica tão sensível que começa a tocar só com vapor de chuveiro. O incêndio não existe mais, mas o alarme segue ativo. Isso é, em linguagem simples, a sensibilização central.[2]

Quando uma lesão ou inflamação dura tempo demais, o sistema nervoso central pode aprender a disparar dor com gatilhos cada vez menores. Com o tempo, mesmo quando a lesão original cicatriza, o sistema continua hipersensível. A dor virou a doença, não mais o sintoma.

As características típicas dessa dor amplificada:

Dor fora de proporção ao estímulo (um toque leve dói). Dor que se espalha para áreas além do local original. Piora com estresse, má noite de sono, variações emocionais. Resposta parcial ou nula a analgésicos comuns e até a cirurgias. Exames de imagem repetidamente normais ou com achados mínimos.

Fibromialgia, síndrome do intestino irritável, cefaleia crônica e muitas dores lombares e cervicais crônicas têm a sensibilização central como mecanismo central. A ressonância magnética, por definição, não vai mostrar esse processo.

Dor nociplástica: o terceiro mecanismo da dor

A Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) reconheceu, em 2017, uma terceira categoria: a dor nociplástica.[3] É uma dor real, persistente, que nasce de alteração no processamento central da dor, sem lesão nociceptiva ou neuropática identificável.

Os critérios para reconhecê-la incluem:

Dor crônica há pelo menos três meses. Distribuição regional ou difusa, em vez de pontualmente sobre uma lesão. Sensibilidade aumentada a estímulos normais. Frequente companhia de fadiga, distúrbios de sono, alterações de humor e sensibilidade a luz ou som.

O grande salto conceitual aqui é: por muito tempo a medicina dividia dor em “orgânica” (com lesão visível) e “psicogênica” (dita “da cabeça”). A dor nociplástica mostrou que existe uma terceira possibilidade: dor biológica real, mesmo sem lesão visível. Ela responde a tratamentos específicos, e ignorá-la leva ao que os pacientes descrevem como “peregrinação médica”.

Dor miofascial: a origem que a mão sente, mas a imagem não captura

Dentro dos músculos, podem se formar pequenos nódulos hipersensíveis chamados pontos-gatilho miofasciais. Eles são contraturas microscópicas de fibras musculares que permanecem ativas mesmo em repouso. Quando pressionados, doem local e à distância, seguindo padrões bem conhecidos.[4]

A síndrome dolorosa miofascial é uma das causas mais comuns de dor crônica no mundo, e uma das mais subdiagnosticadas. Por que? Porque os pontos-gatilho não aparecem em ressonância magnética, tomografia ou raio-X. Eles são detectados pela palpação de um médico ou fisioterapeuta treinado, mapeando áreas específicas e reproduzindo a dor do paciente.

Se a sua dor tem características como:

Dor que piora ao pressionar certos pontos musculares. Dor que irradia em padrões consistentes. Sensação de “nó” ou “corda dura” ao apalpar a musculatura. Dor que melhora com calor, massagem ou alongamento.

Muito provavelmente há componente miofascial, e o tratamento específico envolve agulhamento seco, infiltração do ponto-gatilho, liberação manual e correção de fatores perpetuadores como postura, estresse e sono.

Emoções, catastrofização e o papel real da mente na dor

Precisamos ter uma conversa honesta sobre esse ponto, porque ele é muito mal interpretado. Dizer que emoções influenciam a dor não é dizer que “a dor é psicológica” ou que a pessoa está “fingindo”. É reconhecer o óbvio: somos um só organismo, e o que acontece no corpo conversa o tempo todo com o que acontece na mente.

Um estudo recente mostrou que catastrofização, cinesiofobia e fatores psicossociais explicam cerca de 35% da variância na incapacidade causada por dor crônica lombar.[5] Por outro lado, a correlação entre a intensidade da dor e o grau de incapacidade é relativamente fraca. Ou seja, o quanto a dor afeta sua vida depende menos do “quanto dói” e mais do significado que você atribui à dor.

Catastrofização é aquele pensamento recorrente de que a dor só vai piorar, que nada vai resolver, que algo grave está acontecendo. Cinesiofobia é o medo de se mover com receio de piorar. Esses dois fatores, juntos, mantêm o sistema nervoso em alerta constante e perpetuam a dor, mesmo quando a lesão original já cicatrizou.

Tratar esses aspectos não é frescura nem “psicologizar” a dor. É tratar um mecanismo biológico real, com evidência consistente de benefício. Terapia cognitivo-comportamental, mindfulness, técnicas de exposição gradual ao movimento e educação em dor são ferramentas com respaldo científico robusto.

Quando a ressonância magnética é realmente útil

Nada do que falei até aqui significa que a ressonância magnética é inútil. Ela é um exame precioso, quando pedida no momento certo e por motivo certo. Diretrizes internacionais, incluindo a do American College of Physicians, recomendam ressonância magnética em situações específicas:[7]

Presença de sinais de alerta (red flags), como febre persistente, perda de peso inexplicada, déficit neurológico progressivo, história de câncer, trauma significativo, sintomas de síndrome da cauda equina.

Dor que não melhora após 4 a 6 semanas de tratamento conservador bem feito, especialmente se há suspeita de compressão neural relevante.

Planejamento de procedimentos invasivos (cirurgia, radiofrequência, bloqueios guiados), onde a anatomia precisa ser detalhada.

Fora desses cenários, pedir ressonância magnética “só pra ver” frequentemente gera mais ansiedade do que respostas. Achados sem significado clínico podem virar o foco errado, levando a tratamentos desnecessários e ao abandono de abordagens que funcionam.

O que fazer quando a ressonância não mostrou nada

Se você está nessa situação, aqui estão os próximos passos que realmente fazem diferença:

1. Procure um médico que entenda de dor. O especialista em dor tem formação específica para reconhecer mecanismos invisíveis à imagem. Ele vai investigar sensibilização central, miofascialidade, fatores psicossociais e ajustar o tratamento ao mecanismo predominante.

2. Aceite que o tratamento é multidimensional. Dor crônica sem achado estrutural raramente melhora com um medicamento só. O plano eficaz combina educação em dor, exercício progressivo, fisioterapia específica, medicação adjuvante (antidepressivos em dose analgésica, anticonvulsivantes), técnicas psicológicas e, quando indicado, procedimentos guiados.

3. Trate o sono, o estresse e a alimentação. Parece receita simples, mas são pilares fundamentais. Sono ruim, estresse crônico e alimentação pobre mantêm o sistema nervoso em estado pró-inflamatório e amplificam a percepção de dor.

4. Mantenha movimento. Repouso prolongado é o inimigo silencioso da dor crônica. Exercício bem orientado, mesmo que leve, ajuda a dessensibilizar o sistema nervoso e a recuperar confiança no próprio corpo. O exercício físico tem evidência científica robusta como tratamento de dor crônica.

5. Eduque-se sobre dor. Entender por que a dor está lá já é parte do tratamento. Pacientes que compreendem o mecanismo por trás da própria dor catastrofizam menos, aderem melhor ao tratamento e melhoram mais rápido.

Plano de tratamento quando a ressonância magnética não mostrou nada

Quando procurar um especialista em dor

Se você se identifica com o que descrevi neste artigo, procurar um médico especialista em dor faz total sentido. Os sinais que indicam essa necessidade:

Sua dor dura mais de três meses sem melhora consistente. Você já fez vários exames e ninguém encontrou explicação clara. A dor está interferindo no seu sono, trabalho ou humor. Você está tomando analgésicos com frequência cada vez maior. Profissionais diferentes deram diagnósticos diferentes, deixando você sem rumo. Você sente que sua dor está sendo minimizada por não aparecer em exame.

O especialista em dor junta conhecimento de anatomia, neurofisiologia, farmacologia específica, procedimentos guiados por imagem e abordagem biopsicossocial. É exatamente o perfil que a sua história precisa, quando a ressonância magnética não deu resposta.

Referências

  1. Brinjikji W, Diehn FE, Jarvik JG, et al. MRI Findings of Disc Degeneration are More Prevalent in Adults with Low Back Pain than in Asymptomatic Controls: A Systematic Review and Meta-Analysis. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(12):2394-2399. doi:10.3174/ajnr.A4498
  2. Nijs J, Lahousse A, Kapreli E, et al. Nociplastic Pain Criteria or Recognition of Central Sensitization? Pain Phenotyping in the Past, Present and Future. J Clin Med. 2021;10(15):3203. doi:10.3390/jcm10153203
  3. Fitzcharles MA, Cohen SP, Clauw DJ, Littlejohn G, Usui C, Häuser W. Nociplastic pain: towards an understanding of prevalent pain conditions. Lancet. 2021;397(10289):2098-2110. doi:10.1016/S0140-6736(21)00392-5
  4. Steen JP, Jaiswal KS, Kumbhare D. Myofascial pain syndrome: an update on clinical characteristics, etiopathogenesis, diagnosis, and treatment. Muscle Nerve. 2025;71(5):889-910. doi:10.1002/mus.28377
  5. Doménech-Fernández J, Ezzeddine Angulo A, Peñalver-Barrios L, et al. Catastrophizing and fear avoidance beliefs in chronic low back pain: a cross-sectional study. Eur J Phys Rehabil Med. 2025;61(2):305-312. doi:10.23736/S1973-9087.25.08419-9
  6. Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811-816. doi:10.3174/ajnr.A4173
  7. Qaseem A, Wilt TJ, McLean RM, Forciea MA; Clinical Guidelines Committee of the American College of Physicians. Noninvasive Treatments for Acute, Subacute, and Chronic Low Back Pain: A Clinical Practice Guideline From the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2017;166(7):514-530. doi:10.7326/M16-2367

Perguntas Frequentes

Se a ressonância magnética não mostrou nada, minha dor é psicológica?

Não. Sua dor é 100% real. A ausência de achado na ressonância magnética significa apenas que a origem da dor pertence a um grupo de condições que o exame não captura (dor nociplástica, sensibilização central, síndrome miofascial, neuropatia de fibras finas). Todas são mecanismos biológicos reais, com tratamento específico e evidência científica consistente.

Por que tenho dor se a ressonância magnética está normal?

Porque a ressonância magnética mostra apenas estrutura (ossos, discos, nervos grossos, inflamação visível). Ela não mostra o funcionamento do sistema nervoso, pontos-gatilho musculares, neuropatias de fibras finas ou fatores psicossociais. Em dor crônica, o problema frequentemente está no processamento da dor, e não em uma lesão estrutural visível.

O que é dor nociplástica?

É uma categoria de dor reconhecida pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) em 2017. Diferente da dor nociceptiva (lesão de tecido) e da dor neuropática (lesão de nervo), a dor nociplástica nasce de alteração no processamento central da dor, sem lesão estrutural identificável. Fibromialgia é o exemplo mais conhecido, mas muitas dores lombares crônicas, cefaleias e síndromes dolorosas regionais entram nessa categoria.

Preciso fazer outra ressonância magnética com contraste?

Depende. Se a primeira ressonância magnética foi adequada tecnicamente, repetir o exame raramente traz informação nova. O contraste é útil em casos específicos (suspeita de tumor, infecção, inflamação ativa, pós-operatório), não para “ver melhor” a mesma estrutura. Uma nova conversa clínica cuidadosa costuma ajudar mais do que repetir o exame.

Ressonância magnética de quais partes do corpo mostra dor?

Nenhuma. A ressonância magnética mostra estruturas, não dor. Ela pode mostrar a causa estrutural da dor (hérnia comprimindo nervo, inflamação de articulação, tumor) quando essa causa existe e é detectável por imagem. Quando a causa é funcional (sensibilização central, miofascial, nociplástica), a ressonância não vai capturar.

Tenho dor há anos e nenhum médico me explica. O que fazer?

Procure um médico especialista em dor. Essa especialidade existe justamente para casos em que a medicina tradicional chega ao limite. O especialista em dor investiga mecanismos que fogem ao olhar comum (sensibilização central, pontos-gatilho, dor nociplástica, componente emocional) e monta um plano multidimensional que combina medicamentos, procedimentos, exercício, terapia e ajustes de rotina.

Achados como hérnia, protrusão ou artrose na ressonância magnética são sempre a causa da dor?

Não. Estudos em pessoas sem nenhuma dor mostram que esses achados são extremamente comuns com o avanço da idade: 96% das pessoas aos 80 anos têm degeneração discal sem sentir nenhuma dor. O achado de imagem precisa ter correlação clínica com os sintomas. Por isso é fundamental que um médico experiente avalie o exame junto com a história e o exame físico, em vez de tratar o laudo como diagnóstico final.

Agende sua consulta
(51) 98227-3888
Olá! Sou a Mariana, secretária do Dr. Ney Leal. Clique abaixo para falar comigo no WhatsApp.
Iniciar Conversa no WhatsApp

Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.

Conhece alguém que fez ressonância magnética, o exame não mostrou nada e mesmo assim sente dor? Compartilhe este artigo. Talvez seja a informação que essa pessoa estava precisando encontrar.