“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”
Dr. Ney Leal
Neste artigo
Quem convive com dor crônica conhece bem a noite. A hora em que a casa silencia, o corpo finalmente para, e é justamente aí que a dor fica mais alta. Aí vem o relógio: uma da manhã, duas, três. E o dia seguinte começa com a dor de sempre somada a um cansaço que não sai do corpo.
Por isso tanta gente me pergunta sobre o Dayvigo, o novo remédio para insônia que está chegando ao Brasil. Neste texto eu explico o que ele é, como age, o que os estudos mostram, quem não pode usar e, principalmente, o que ele faz (e o que ele não faz) por quem tem dor.
Dayvigo: o que é e para que serve
Dayvigo é o nome comercial do lemborexante, um remédio desenvolvido pela farmacêutica japonesa Eisai. Ele serve para tratar a insônia em adultos, tanto a dificuldade de pegar no sono quanto a de continuar dormindo durante a noite[1].
Apesar de ser novidade aqui, ele não é um remédio novo no mundo. Foi aprovado nos Estados Unidos em dezembro de 2019 e no Japão em janeiro de 2020[2]. São quase sete anos de uso fora do Brasil, o que conta muito: efeitos que estudos de poucos meses não pegam costumam aparecer justamente nesses anos de uso no mundo real.

Como o Dayvigo funciona
O cérebro tem uma substância chamada orexina, que funciona como um sinal de “fique acordado”[1]. É ela que ajuda a manter a gente alerta. Bloquear esse sinal na hora de dormir facilita o sono, e é exatamente isso que o Dayvigo faz.
Pense numa campainha que alguém insiste em apertar enquanto você tenta dormir. O Dayvigo não te desmaia nem apaga o cérebro. Ele tira o dedo da campainha: bloqueia o lugar onde a orexina se encaixa, e o sinal de “fique acordado” perde força[1]. Os médicos chamam esse tipo de remédio de antagonista de orexina, que é só o nome técnico de “bloqueador do sinal de acordar”.
O que os estudos mostram
Dois grandes estudos sustentaram a aprovação. No primeiro, 1.006 pessoas com 55 anos ou mais e insônia foram sorteadas para tomar Dayvigo, zolpidem (um remédio para dormir bem conhecido) ou um comprimido sem efeito, durante um mês. O sono foi medido em laboratório, com sensores. Quem tomou Dayvigo pegou no sono mais rápido e acordou menos durante a noite do que quem tomou o comprimido sem efeito. Na segunda metade da noite, ficou menos tempo acordado do que quem tomou zolpidem[3].
No segundo, 949 adultos usaram o remédio por seis meses, e o benefício se manteve ao longo de todo o período[4]. Esse ponto importa: para muita gente, a insônia é problema de meses, não de semanas.
Um detalhe honesto: esses dois estudos foram feitos pelo próprio fabricante. Isso é comum na aprovação de remédios novos e não invalida os resultados, mas é bom saber. Por isso pesa a favor que uma revisão feita por pesquisadores de fora da empresa, publicada em 2025, comparando os remédios dessa família com mais de 5 mil pacientes, também concluiu que eles funcionam melhor que o comprimido sem efeito[5].
E a dor? O que o Dayvigo faz por quem tem dor crônica
Aqui eu preciso ser bem claro, porque é a pergunta que mais interessa a quem lê este blog: o Dayvigo não é remédio para dor.
Uma revisão de 2025 juntou todos os estudos dessa família de remédios em pessoas com dor. O resultado foi consistente num ponto: o sono melhorou. A intensidade da dor, não[6]. Os próprios autores lembram que foram poucos estudos, pequenos e curtos, então a resposta sobre a dor ainda não é definitiva. Mas, hoje, ninguém pode prometer que ele alivia a dor.
Então por que eu, médico da dor, me interesso por ele? Porque dor e sono andam de mãos dadas, e um alimenta o outro. Uma noite mal dormida deixa o corpo mais sensível à dor no dia seguinte, e a dor fragmenta o sono da noite seguinte. Expliquei esse ciclo com calma no texto sobre dor crônica e sono.
Há uma pista interessante na fibromialgia. Num estudo pequeno, com 10 mulheres que tinham fibromialgia e insônia, um remédio irmão do Dayvigo (o suvorexante, da mesma família) aumentou o sono em cerca de meia hora por noite. No dia seguinte, elas demoraram um pouco mais para tirar o dedo de um estímulo de calor, sinal de que estavam menos sensíveis à dor[7]. É pouca gente, pouco tempo e não é o Dayvigo. É um sinal, não uma prova. Uma revisão de 2026 sobre tratamento do sono na fibromialgia apontou esse tipo de remédio entre as estratégias mais promissoras[8].
Dormir melhor também pode pesar no cansaço e na névoa mental que tanta gente com fibromialgia sente durante o dia. Mas o Dayvigo nunca foi estudado especificamente para isso. Expliquei essa névoa, o que a alimenta e o que ajuda em fibro fog: a névoa que ninguém vê.
Dayvigo vicia?
É a dúvida de quase todo mundo que já tomou remédio para dormir e teve dificuldade de parar. A resposta tem duas partes.
A parte boa: nos estudos, quem parou o Dayvigo de uma vez não teve sintomas de abstinência nem a chamada insônia de rebote, aquela piora do sono que aparece quando se tira o remédio. O corpo também não pareceu se acostumar a ponto de precisar de doses cada vez maiores[5].
A parte que as manchetes esquecem: num teste com pessoas que já tinham histórico de abuso de sedativos, o Dayvigo foi “apreciado” de forma parecida com o zolpidem[1]. Por isso ele é remédio controlado: nos Estados Unidos e também no Brasil, onde a compra exige receita azul (tipo B1). Menor risco de dependência não é o mesmo que risco zero, principalmente para quem já teve problema com álcool ou outros remédios.
Quem não deve usar e os cuidados
Pela bula americana[1]:
- Quem tem narcolepsia não pode usar. Narcolepsia é uma doença em que a pessoa tem crises de sono incontroláveis durante o dia.
- Sonolência na manhã seguinte. É o efeito colateral mais comum. Com a dose maior, a orientação é evitar dirigir no dia seguinte até saber como o corpo reage.
- Só tomar com uma noite inteira pela frente. O remédio deve ser tomado imediatamente antes de deitar, com pelo menos 7 horas disponíveis até a hora de acordar. Tomado logo depois de uma refeição, demora mais para fazer efeito.
- Cuidado com outros remédios que dão sono. O risco de sonolência excessiva aumenta quando ele se soma a outros remédios que deprimem o sistema nervoso. Muita gente com dor usa algum: pregabalina, gabapentina, amitriptilina, opioides. Isso não proíbe a combinação, mas exige que o seu médico saiba de tudo o que você toma.
- Alguns remédios aumentam o efeito dele, como o fluconazol (antifúngico) e a claritromicina (antibiótico).
- Efeitos que pedem atenção: sensação de estar acordado sem conseguir se mexer ao adormecer ou ao acordar (paralisia do sono), ver ou ouvir coisas nessa transição, andar ou fazer coisas dormindo (nesse caso, parar o remédio), e piora de depressão.
- Se a insônia continuar depois de 7 a 10 dias, o médico deve reavaliar, porque pode haver outra causa por trás.

Quando o Dayvigo chega às farmácias
No Brasil, o Dayvigo vai ser vendido pela Eurofarma, em parceria com a Eisai[9]. Ainda não há data oficial de lançamento: a previsão é o fim de 2026 ou janeiro de 2027. O remédio já aparece cadastrado nas farmácias online, com nome e preço, mas em todas como indisponível, em qualquer região do país. Ou seja: a distribuição ainda não começou.
O Dayvigo terá duas apresentações, de 5 mg e de 10 mg. Por enquanto, só a de 5 mg aparece cadastrada nas farmácias online. Segundo a Eurofarma, as duas terão o mesmo preço.
Quanto ao preço do Dayvigo: numa grande rede de farmácias, a caixa de 5 mg com 28 comprimidos aparecia a R$ 264,87 em 31 de outubro de 2026, ainda sem estoque. O valor pode mudar até o lançamento e varia de farmácia para farmácia.
Vou receitar? Minha opinião
Vou. Para os meus pacientes com dor crônica que dormem mal, o Dayvigo entra como mais uma opção, com duas características que pesam a favor: o efeito se manteve por meses nos estudos, e parar o tratamento não trouxe abstinência.
Mas ele entra como uma peça, não como a solução. Remédio para dormir não substitui o tratamento da dor, nem os hábitos de sono, nem a terapia para insônia, que eu explico no texto sobre dor crônica e sono. E ninguém deve começar por conta própria, sem conversar com o médico que acompanha a sua dor, principalmente se já usa outros remédios que dão sono.
Se a sua dor tira o seu sono há meses, vale procurar um médico especialista em dor. Tratar os dois juntos costuma dar mais resultado do que tratar cada um separado.
Referências
- Eisai Inc. DAYVIGO (lemborexant) tablets: prescribing information. U.S. Food and Drug Administration; atualizada em 2025. DailyMed
- Scott LJ. Lemborexant: first approval. Drugs. 2020;80(4):425-432. PubMed
- Rosenberg R, Murphy P, Zammit G, et al. Comparison of lemborexant with placebo and zolpidem tartrate extended release for the treatment of older adults with insomnia disorder: a phase 3 randomized clinical trial. JAMA Netw Open. 2019;2(12):e1918254. PubMed
- Kärppä M, Yardley J, Pinner K, et al. Long-term efficacy and tolerability of lemborexant compared with placebo in adults with insomnia disorder: results from the phase 3 randomized clinical trial SUNRISE 2. Sleep. 2020;43(9). PubMed
- Kishi T, Ikuta T, Citrome L, et al. Comparative efficacy and safety of daridorexant, lemborexant, and suvorexant for insomnia: a systematic review and network meta-analysis. Transl Psychiatry. 2025;15(1):211. PubMed
- Herrero Babiloni A, Sangalli L, Puertas-Cuesta FJ, et al. The putative effects of orexin receptor antagonists on pain and sleep in humans: a systematic review. Sleep Med. 2025;133:106633. PubMed
- Roehrs T, Withrow D, Koshorek G, et al. Sleep and pain in humans with fibromyalgia and comorbid insomnia: double-blind, crossover study of suvorexant 20 mg versus placebo. J Clin Sleep Med. 2020;16(3):415-421. PubMed
- Dos Santos MA, da Luz MC, do Prado Neto SC, et al. Impact of sleep disturbances treatment in patients with fibromyalgia: a scoping review. J Sleep Res. 2026;35(4):e70296. PubMed
- Eurofarma. Eurofarma anuncia aliança estratégica com Eisai para comercialização de DAYVIGO no Brasil. Comunicado à imprensa, agosto de 2026. Eurofarma
Perguntas frequentes
Para que serve o Dayvigo?
O Dayvigo (lemborexante) serve para tratar a insônia em adultos, tanto a dificuldade de pegar no sono quanto a de manter o sono durante a noite[1]. Ele age bloqueando a orexina, uma substância do cérebro que sinaliza “fique acordado”. Não é remédio para dor nem para ansiedade.
Quando o Dayvigo vai ser vendido no Brasil?
Ainda não há data oficial. A previsão é o fim de 2026 ou janeiro de 2027, com venda pela Eurofarma[9]. O produto já aparece cadastrado em farmácias online (a caixa de 5 mg com 28 comprimidos, por cerca de R$ 265 em outubro de 2026), mas ainda indisponível em todas.
Quanto custa o Dayvigo?
Em 31 de outubro de 2026, a caixa de 5 mg com 28 comprimidos aparecia a R$ 264,87 numa grande rede de farmácias online, ainda indisponível. Segundo a Eurofarma, a apresentação de 10 mg terá o mesmo preço. O valor pode mudar até o lançamento e varia entre farmácias.
O Dayvigo vicia?
Dayvigo precisa de receita?
Sim. É remédio controlado, e no Brasil a compra exige receita azul (tipo B1), feita pelo médico. Desconfie de qualquer site ou anúncio que ofereça Dayvigo sem receita.
O Dayvigo ajuda na dor ou na fibromialgia?
Não diretamente. Os estudos com essa família de remédios em pessoas com dor mostraram melhora do sono, mas não da intensidade da dor[6]. Como dormir mal piora a dor, tratar a insônia pode ajudar no conjunto, mas o Dayvigo não substitui o tratamento da dor.
Posso tomar Dayvigo junto com remédios para dor?
Só com orientação médica. A sonolência pode aumentar quando ele se soma a outros remédios que dão sono, e muitos remédios para dor têm esse efeito, como pregabalina, gabapentina, amitriptilina e opioides[1]. O seu médico precisa saber de tudo o que você toma.
Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.
Conhece alguém que vive com dor e passa as noites em claro? Compartilhe este texto. Entender o que um remédio novo faz, e o que ele não faz, ajuda a conversar melhor com o médico.


