“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”
Dr. Ney Leal
Neste artigo
A palavra estava ali, na ponta da língua, e sumiu no meio da frase. O livro foi lido três vezes na mesma página. O compromisso de amanhã, anotado e esquecido. E aquela sensação de estar pensando através de um vidro embaçado, o dia inteiro.
Quem tem fibromialgia conhece isso, e tem até nome: fibro fog, a névoa mental da fibromialgia. Neste texto eu explico o que ela é, por que não é coisa da sua cabeça (no sentido maldoso da expressão), o que a alimenta, principalmente o sono, e o que a ciência sabe sobre o que ajuda.
Fibro fog: o que é a névoa mental da fibromialgia
Fibro fog é o nome que se dá às dificuldades de pensamento que acompanham a fibromialgia: memória que falha, atenção que escapa e uma sensação de cabeça lenta, como se a mente estivesse coberta de neblina[1]. “Fog” é “neblina” em inglês.
No dia a dia, costuma aparecer assim:
- Esquecer o que ia dizer, ou trocar uma palavra por outra.
- Ler e não reter o que leu.
- Perder o fio da conversa quando alguém interrompe.
- Ter dificuldade de fazer duas coisas ao mesmo tempo, coisa que antes era automática.
- Sentir a cabeça mais lenta, principalmente nos dias de mais dor ou depois de uma noite ruim.

Por muito tempo esse sintoma ficou em segundo plano, atrás da dor. Mas uma revisão sobre o tema mostra que, para muitos pacientes, a névoa incomoda tanto quanto a dor, às vezes mais, e muda a vida de forma importante[1]. Não é um detalhe. Para quem trabalha, estuda ou cuida da casa e dos filhos, pode ser o sintoma que mais atrapalha.
Não é imaginação: os testes confirmam
Uma das coisas mais duras para quem tem fibro fog é ouvir que “todo mundo esquece as coisas”. Os estudos dizem outra coisa.
Uma análise que juntou 37 estudos comparou 964 pessoas com fibromialgia a 1.025 pessoas sem a doença, da mesma idade, usando testes de memória e atenção aplicados por profissionais. Quem tinha fibromialgia foi pior em todas as áreas testadas. As maiores diferenças apareceram na memória e na capacidade de manter o foco, ignorando distrações[2]. Os autores concluem que a dificuldade que as pacientes relatam aparece também nos testes objetivos[2].
Outro estudo foi além do laboratório. Cinquenta pessoas com fibromialgia e cinquenta sem a doença fizeram pequenos testes de memória no celular, cinco vezes por dia, durante oito dias, no meio da vida real. Quem tinha fibromialgia foi pior na memória de curto prazo, aquela que segura a informação por alguns instantes, como um número de telefone[3]. A conclusão dos pesquisadores foi direta: as pessoas com fibromialgia não estão exagerando[3].
Por que a fibromialgia embaralha a cabeça
A fibromialgia é uma condição do sistema nervoso. O maior estudo genético já feito sobre ela, publicado em 2026, mostrou que os genes ligados à doença trabalham no cérebro, e o tipo de neurônio mais ligado a ela fica no hipocampo, uma região que cuida da memória. Os próprios autores levantam a hipótese de que isso tenha relação com a névoa mental[4]. Contei esse estudo em detalhe no texto fibromialgia é hereditária?
Mas a névoa não vem sozinha. Ela faz parte de um ciclo. Um estudo acompanhou 450 mulheres com fibromialgia por dois anos e viu que dor, cansaço e névoa mental se alimentam: quem tinha mais névoa no começo teve mais dor e mais cansaço dois anos depois, e quem tinha mais dor no começo teve mais névoa depois[5].
É como um computador com programas demais abertos ao mesmo tempo. A dor ocupa memória, o cansaço ocupa memória, e o que sobra para pensar fica pouco. Por isso a névoa costuma piorar nos dias ruins.
O humor também entra nessa conta. Uma análise de 23 estudos mostrou que, quanto mais depressão e ansiedade, maior a diferença nos testes de memória e atenção entre quem tem e quem não tem fibromialgia[6]. Isso não quer dizer que a névoa seja “psicológica”. Quer dizer que o humor é mais uma peça desse quebra-cabeça, e cuidar dele faz parte do tratamento. Escrevi sobre essa ligação em dor crônica e depressão.
O sono: o que mais alimenta a névoa
Se eu tivesse que apontar um suspeito principal, seria o sono. Dormir mal, ou dormir sem descansar, prejudica a atenção, a memória e o raciocínio de qualquer pessoa, com ou sem dor[7]. E o sono que não descansa é uma das marcas da fibromialgia: muita gente dorme oito horas e acorda como se não tivesse dormido.
A boa notícia é que o sono tem tratamento, e uma revisão de 2025 com 47 estudos e mais de 11 mil pacientes com fibromialgia mostrou o que funciona melhor[8]:
- Terapia cognitivo-comportamental para insônia, uma terapia curta, focada em reeducar o sono, foi o tratamento que mais melhorou a qualidade do sono[8]. Em outra análise, além do sono, ela também reduziu a dor, a ansiedade e a depressão, embora com estudos ainda pequenos[9].
- A pregabalina melhorou o sono de forma moderada, mas com incerteza, e os autores pedem cautela por causa dos efeitos colaterais[8].
- Curiosamente, amitriptilina, duloxetina e milnaciprana, remédios muito usados na fibromialgia, não mostraram benefício claro especificamente para o sono nessa análise[8]. Eles podem continuar sendo úteis para a dor, mas não se deve esperar deles a solução do sono.
E os remédios novos para insônia, como o Dayvigo, que está chegando ao Brasil? Eles melhoram o sono, mas nunca foram estudados especificamente para o fibro fog. Expliquei o que ele faz e o que não faz em novo remédio para insônia: o Dayvigo. Para o ciclo entre dor e sono como um todo, tem o texto sobre dor crônica e sono.
Quando o remédio também pesa
Existe um lado que pouca gente conversa no consultório: alguns remédios usados para tratar a dor também podem deixar a cabeça mais lenta.
O exemplo mais claro é a pregabalina. A própria bula lista a dificuldade de concentração e de atenção entre os efeitos colaterais mais comuns, junto com tontura e sonolência[10]. Isso não significa que ela seja ruim. Muita gente se beneficia dela. Significa que, se a névoa piorou depois de começar ou aumentar um remédio, vale contar isso ao seu médico, porque às vezes um ajuste de dose ou de horário faz diferença.
O que não se deve fazer é parar por conta própria. A bula da pregabalina orienta retirar aos poucos, ao longo de pelo menos uma semana[10]. Parar de repente pode trazer outros problemas.
O que ajuda a clarear
O fibro fog ainda é pouco estudado[1]. Quase tudo o que se sabe sobre tratamento vem de cuidar do que alimenta a névoa: sono, dor, cansaço, humor e os próprios remédios.
Nesse caminho, o exercício físico é o que tem mais evidência na fibromialgia. Uma análise de 167 estudos mostrou que praticamente todo tipo de exercício melhora a dor e o humor. Os aeróbicos e os de fortalecimento melhoram também o sono, e os de fortalecimento e os que unem corpo e mente, como yoga e tai chi, melhoram o cansaço[11]. As terapias psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental e o mindfulness, melhoraram dor, sono e humor[11]. São exatamente as peças do ciclo que alimenta a névoa.

Enquanto o tratamento faz efeito, algumas estratégias simples ajudam a conviver com a névoa. Não são tratamento, e não há estudo por trás delas. São muletas úteis:
- Anotar tudo: agenda, lista de tarefas, alarmes no celular.
- Fazer uma coisa de cada vez, especialmente as importantes.
- Deixar as tarefas que exigem mais da cabeça para o horário do dia em que você costuma estar melhor.
- Avisar as pessoas próximas. Explicar que você não está distraída por descaso tira um peso enorme das conversas.
Fibro fog tem cura? E pode virar Alzheimer?
Não existe um remédio que “cure” o fibro fog. Mas ele não é fixo: varia ao longo do dia e de um dia para o outro[3], e anda junto com a dor e o cansaço[5]. É por isso que o caminho passa por cuidar dessas peças.
Sobre o medo do Alzheimer, que muita gente carrega calada: num dos grandes estudos genéticos de 2026, a fibromialgia não mostrou ligação genética com a doença de Alzheimer nem com a de Parkinson[12]. É um dado tranquilizador, mas tem limite: ele fala de genes, não acompanhou pessoas ao longo dos anos.
Por isso, uma regra prática: a névoa da fibromialgia oscila. Uma perda de memória que só piora, mês após mês, sem dias melhores, merece avaliação médica, tenha você fibromialgia ou não. Se a névoa está atrapalhando a sua vida, vale procurar um médico especialista em dor. Para entender a doença como um todo, o ponto de partida é o guia sobre fibromialgia.
Referências
- Kravitz HM, Katz RS. Fibrofog and fibromyalgia: a narrative review and implications for clinical practice. Rheumatol Int. 2015;35(7):1115-1125. PubMed
- Bell T, Trost Z, Buelow MT, et al. Meta-analysis of cognitive performance in fibromyalgia. J Clin Exp Neuropsychol. 2018;40(7):698-714. PubMed
- Kratz AL, Whibley D, Kim S, et al. Fibrofog in daily life: an examination of ambulatory subjective and objective cognitive function in fibromyalgia. Arthritis Care Res (Hoboken). 2020;72(12):1669-1677. PubMed
- Kerrebijn I, Bjornsdottir G, Arbabi K, et al. The genetic architecture of fibromyalgia across 2.5 million individuals. Nat Med. 2026;32(8):3060-3070. PubMed
- Ranum RM, Toussaint LL, Whipple MO, Vincent A. Predictive bidirectional relations between pain, fatigue, and dyscognition in fibromyalgia. Mayo Clin Proc Innov Qual Outcomes. 2022;6(2):143-147. PubMed
- Wu YL, Huang CJ, Fang SC, et al. Cognitive impairment in fibromyalgia: a meta-analysis of case-control studies. Psychosom Med. 2018;80(5):432-438. PubMed
- Mullington JM, Cunningham TJ, Haack M, Yang H. Causes and consequences of chronic sleep deficiency and the role of orexin. Front Neurol Neurosci. 2021;45:128-138. PubMed
- Pathak A, Kelleher EM, Brennan I, et al. Treatments for enhancing sleep quality in fibromyalgia: a systematic review and meta-analysis. Rheumatology (Oxford). 2025;64(8):4495-4516. PubMed
- Climent-Sanz C, Valenzuela-Pascual F, Martínez-Navarro O, et al. Cognitive behavioral therapy for insomnia (CBT-i) in patients with fibromyalgia: a systematic review and meta-analysis. Disabil Rehabil. 2022;44(20):5770-5783. PubMed
- Pfizer. LYRICA (pregabalin): prescribing information. U.S. Food and Drug Administration. DailyMed
- Kundakci B, Kaur J, Goh SL, et al. Efficacy of nonpharmacological interventions for individual features of fibromyalgia: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. Pain. 2022;163(8):1432-1445. PubMed
- Bright U, Beck S, Levey DF, et al. The genetics of fibromyalgia and its relationships to psychiatric and medical traits. Nat Commun. 2026;17(1). PubMed
Perguntas frequentes
O que é fibro fog?
Fibro fog tem cura?
Fibro fog pode virar Alzheimer?
Num dos grandes estudos genéticos de 2026, a fibromialgia não mostrou ligação genética com Alzheimer nem com Parkinson[12]. A névoa da fibromialgia oscila, tem dias melhores e piores. Uma perda de memória que só piora, sem dias melhores, deve ser avaliada por um médico.
Qual o tratamento do fibro fog?
O tratamento passa por cuidar do que alimenta a névoa: melhorar o sono (a terapia cognitivo-comportamental para insônia é a que tem mais evidência na fibromialgia[8]), fazer exercício, tratar a dor e o humor, e revisar com o médico os remédios que possam deixar a cabeça mais lenta.
Remédio para fibromialgia pode piorar a memória?
Pode. A bula da pregabalina, por exemplo, lista a dificuldade de concentração e atenção entre os efeitos colaterais mais comuns[10]. Se a névoa piorou depois de começar um remédio, converse com o seu médico, mas não pare por conta própria: alguns, como a pregabalina, precisam ser retirados aos poucos.
Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.
Conhece alguém com fibromialgia que vive pedindo desculpas por esquecer as coisas? Compartilhe este texto. Saber que a névoa tem nome e explicação já tira um peso.



