“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”

Dr. Ney Leal

Neuralgia pós-herpética é a principal complicação do herpes zóster. A neuralgia pós-herpética pode durar meses ou anos, mas tem prevenção e tratamento eficazes.

A neuralgia pós-herpética é a complicação mais temida do herpes zóster e pode durar meses ou anos. O herpes zóster (cobreiro) já é doloroso por si só. Mas para 10% a 18% dos pacientes, a dor não vai embora depois que as lesões na pele cicatrizam[1]. Essa dor persistente é chamada de neuralgia pós-herpética e pode durar meses ou até anos, causando sofrimento intenso. Você pode entender melhor lendo o nosso guia sobre dor crônica.

Se você teve herpes zóster e a dor não passou, ou se quer saber como prevenir essa complicação, este artigo é para você. Veja também o nosso guia sobre dor neuropática.

O que é neuralgia pós-herpética

O herpes zóster é causado pela reativação do vírus da varicela (catapora) que ficou “adormecido” nos nervos. Quando ele desperta, inflama o nervo e causa as bolhas dolorosas na pele. Estima-se que cerca de 1 em cada 3 pessoas terá um episódio de herpes zóster ao longo da vida[1].

Na neuralgia pós-herpética, o vírus danificou o nervo de forma mais profunda. Mesmo depois que a infecção passou, o nervo continua enviando sinais de dor. É como se o fogo tivesse sido apagado, mas as paredes continuassem quentes, queimando.

O diagnóstico é feito quando a dor persiste por mais de 90 dias após o aparecimento das lesões do herpes zóster. Em revisão sistemática global, mais de 30% dos pacientes com neuralgia pós-herpética continuam com dor por mais de 1 ano[2].

Como o nervo é danificado

Para entender melhor por que a dor persiste, é preciso saber o que acontece com o nervo. Durante o herpes zóster, o vírus se multiplica dentro do gânglio nervoso, uma espécie de central de fios que armazena nervos sensitivos. Essa multiplicação intensa causa inflamação e dano às fibras nervosas. Em alguns pacientes, o nervo se recupera totalmente após a fase aguda. Em outros, ele fica com cicatrizes microscópicas e passa a disparar sinais de dor sem motivo, como um cabo elétrico que continua mandando faíscas mesmo depois que a tomada foi desligada.

Esse fenômeno tem nome: sensibilização central e periférica. O sistema nervoso aprende a sentir dor mesmo na ausência de um estímulo doloroso real. Por isso, tratar a neuralgia pós-herpética não é simplesmente “matar a dor”, é ajudar o sistema nervoso a se reorganizar e voltar a interpretar corretamente os sinais que recebe.

Neuralgia pós-herpética: as 3 fases da dor

Fatores de risco

  • Idade: quanto mais velho o paciente, maior o risco. A incidência de herpes zóster e o risco de cronificação aumentam significativamente acima dos 60 anos[2].
  • Intensidade da dor aguda: quanto mais intensa a dor durante o herpes zóster, maior a chance de neuralgia.
  • Gravidade das lesões: lesões extensas e mais numerosas indicam maior dano ao nervo.
  • Imunossupressão: pacientes com imunidade comprometida têm risco aumentado.
  • Localização: herpes zóster na face (nervo trigêmeo) tem maior risco que no tronco. Conheça mais sobre a neuralgia do trigêmeo.
Fatores de risco para neuralgia pós-herpética

Sintomas

Queimação constante: uma dor em queimação que não dá trégua, na mesma região onde apareceram as bolhas. É um dos sintomas mais característicos e costuma ser descrita pelos pacientes como “uma queimadura que não sara”.

Alodinia: dor extrema ao toque leve, o contato da roupa, do lençol ou até do vento causa dor intensa. Este é um dos sintomas mais incapacitantes. Muitos pacientes evitam tomar banho, vestir camisas ou abraçar familiares por causa dela.

Choques e pontadas: dor lancinante que surge em ondas sobre a queimação de base. São episódios curtos mas extremamente intensos, que podem acordar o paciente várias vezes durante a noite.

Coceira intensa: muitos pacientes também relatam coceira intratável na região afetada, que paradoxalmente piora ao coçar, porque o estímulo aumenta a hipersensibilidade do nervo.

Sensibilidade alterada: a região afetada pode apresentar áreas de dormência misturadas com áreas hipersensíveis, criando um mapa irregular de sensações desconfortáveis na mesma área da pele.

Impacto emocional dos sintomas

É comum a neuralgia pós-herpética vir acompanhada de ansiedade, irritabilidade e quadros depressivos. Não porque a dor seja “psicológica”, mas porque dormir mal todas as noites, evitar contato físico e perder atividades prazerosas desgasta qualquer pessoa. O acompanhamento psicológico, quando indicado, faz parte do tratamento e não é sinal de fraqueza, é parte do cuidado integral.

Sintomas da neuralgia pós-herpética

Prevenção, o mais importante

Vacina contra herpes zóster: a vacina recombinante (HZ/su, Shingrix) é a forma mais eficaz de prevenção. No grande ensaio clínico ZOE-70, a vacina apresentou eficácia de cerca de 89,8% na prevenção do herpes zóster em adultos com 70 anos ou mais e de 88,8% na prevenção da neuralgia pós-herpética nessa faixa etária[3]. São duas doses com intervalo de 2 a 6 meses, recomendadas para adultos a partir dos 50 anos.

Tratamento precoce do herpes zóster: iniciar o antiviral oral (aciclovir, valaciclovir ou fanciclovir) preferencialmente nas primeiras 72 horas dos sintomas reduz a gravidade e a duração da dor aguda[4]. Quanto mais cedo, melhor.

Prevenção e tratamento da neuralgia pós-herpética

Tratamento

O tratamento da neuralgia pós-herpética é em camadas. A maioria dos pacientes precisa combinar mais de uma abordagem para conseguir alívio significativo. Não existe uma “pílula mágica”, mas existe um plano terapêutico que funciona quando bem conduzido.

Medicamentos orais: pregabalina, gabapentina, amitriptilina e duloxetina são as opções de primeira linha, com forte recomendação nas diretrizes do NeuPSIG da IASP para dor neuropática[5]. Esses medicamentos atuam diretamente sobre o sistema nervoso, reduzindo a hipersensibilidade dos nervos.

Esses remédios geralmente começam em doses baixas e são ajustados aos poucos. A pregabalina, por exemplo, costuma iniciar em 75mg duas vezes ao dia e pode chegar a 300mg ou mais por dia conforme a resposta. A gabapentina segue um esquema parecido, mas com doses mais altas, podendo chegar a 1800-3600mg/dia divididos ao longo do dia. A amitriptilina é usada em doses bem mais baixas que as antidepressivas, geralmente 10 a 50mg à noite. É comum o paciente precisar testar mais de uma opção até encontrar a que funciona melhor para o seu caso, e isso é normal, não significa que o tratamento esteja falhando.

Tratamentos tópicos: adesivos de lidocaína 5% aplicados sobre a área dolorosa e adesivos de capsaicina em alta concentração (8%) são eficazes e têm poucos efeitos sistêmicos, sendo recomendados como segunda linha para dor neuropática localizada[5]. A lidocaína age como um anestésico local de longa duração, enquanto a capsaicina atua dessensibilizando os receptores de dor da pele.

Procedimentos intervencionistas: bloqueios nervosos, radiofrequência pulsada e neuromodulação podem ser indicados em casos refratários, quando o tratamento medicamentoso não foi suficiente. São opções realizadas por médicos especialistas em dor, geralmente com auxílio de imagem para garantir precisão.

Abordagem multidisciplinar: a dor crônica pós-herpes impacta o sono, o humor e a vida social. Fisioterapia, psicologia e cuidados com o sono são fundamentais e fazem parte de qualquer plano de tratamento bem conduzido.

Vivendo com a neuralgia pós-herpética

Conviver com essa dor é desafiador, mas há estratégias práticas que ajudam a melhorar a qualidade de vida enquanto o tratamento faz efeito.

Roupas confortáveis: prefira tecidos macios e leves, evite costuras grossas ou tecidos ásperos em contato direto com a região dolorosa. Algodão e malhas finas costumam ser bem tolerados.

Banhos mornos, não quentes: o calor pode aumentar a sensibilidade da pele. Banhos com água morna costumam ser mais bem tolerados e podem até trazer alívio temporário.

Cuidados com o sono: a dor atrapalha o sono e o sono ruim piora a dor, formando um ciclo difícil de quebrar. Manter horários regulares, evitar telas antes de dormir e cuidar do ambiente do quarto faz diferença real.

Apoio emocional: familiares informados ajudam mais. Compartilhar o que está acontecendo, sem se isolar, é parte importante do enfrentamento.

Paciência consigo mesmo: a melhora costuma ser gradual, não linear. Há dias melhores e dias piores. O importante é manter a continuidade do tratamento e o acompanhamento médico regular.

Quando procurar um especialista

Se a dor do herpes zóster não melhorou após 4 a 6 semanas, ou se está com as características descritas acima, procure um médico especialista em dor. Quanto mais cedo o tratamento da neuralgia pós-herpética começa, melhores os resultados.

Referências científicas

  1. Harpaz R, Ortega-Sanchez IR, Seward JF; Advisory Committee on Immunization Practices. Prevention of herpes zoster: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR Recomm Rep. 2008;57(RR-5):1-30. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18528318/
  2. Kawai K, Gebremeskel BG, Acosta CJ. Systematic review of incidence and complications of herpes zoster: towards a global perspective. BMJ Open. 2014;4(6):e004833. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24916088/
  3. Cunningham AL, Lal H, Kovac M, et al. Efficacy of the herpes zoster subunit vaccine in adults 70 years of age or older. N Engl J Med. 2016;375(11):1019-1032. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27626517/
  4. Dworkin RH, Johnson RW, Breuer J, et al. Recommendations for the management of herpes zoster. Clin Infect Dis. 2007;44 Suppl 1:S1-26. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17143845/
  5. Finnerup NB, Attal N, Haroutounian S, et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-73. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25575710/

Já teve herpes zóster? Compartilhe este artigo com alguém acima de 50 anos. A prevenção com vacina pode evitar muito sofrimento.

Perguntas frequentes sobre neuralgia pós-herpética

A neuralgia pós-herpética tem cura?

A maioria dos casos melhora ao longo do tempo, mas a “cura” depende do paciente. Cerca de metade dos pacientes apresenta melhora significativa nos primeiros 3 meses, e a maior parte responde bem ao tratamento ao longo de 6 a 12 meses. Em alguns pacientes, especialmente idosos ou com lesões mais extensas, a dor pode persistir por mais tempo, mas ainda assim pode ser controlada com a abordagem correta.

Quanto tempo dura a neuralgia pós-herpética?

O tempo de duração varia muito. Por definição, ela começa quando a dor persiste por mais de 90 dias após o herpes zóster. Em cerca de 30% dos pacientes, a dor passa de 1 ano. Em casos mais raros pode durar vários anos, mas o tratamento adequado reduz significativamente a intensidade ao longo do tempo.

A vacina contra herpes zóster funciona mesmo?

Sim, a vacina recombinante (Shingrix) tem eficácia de cerca de 90% na prevenção do herpes zóster e da neuralgia pós-herpética em adultos acima de 50 anos. É a forma mais eficaz de evitar essa complicação e está disponível na rede privada brasileira.

Quem já teve herpes zóster pode ter de novo?

Sim, embora seja menos comum. A vacina é recomendada mesmo para quem já teve herpes zóster, para reduzir o risco de recidiva e de neuralgia pós-herpética em uma nova crise.

Posso usar anti-inflamatórios para neuralgia pós-herpética?

Anti-inflamatórios comuns como ibuprofeno ou diclofenaco costumam ter pouca eficácia na dor neuropática, porque o problema não é inflamação, é hipersensibilidade do nervo. O tratamento mais eficaz envolve medicamentos específicos para dor neuropática como pregabalina, gabapentina, amitriptilina ou duloxetina.

A dor pode voltar depois de melhorar?

Pode. Por isso o acompanhamento médico é importante mesmo após a melhora inicial. Estresse, infecções e quedas de imunidade podem desencadear episódios de piora da dor, que costumam ser mais leves do que o quadro inicial e respondem bem ao reajuste do tratamento.

Agende sua consulta
(51) 98227-3888
Olá! Sou a Mariana, secretária do Dr. Ney Leal. Clique abaixo para falar comigo no WhatsApp.
Iniciar Conversa no WhatsApp

Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.

Conhece alguém que convive com dor crônica? Compartilhe este artigo. Talvez seja a informação que essa pessoa estava precisando encontrar.