“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”
Dr. Ney Leal
Neste artigo
Queimação, choques elétricos, agulhadas, formigamento. Se a sua dor tem essas características, é provável que seja uma esse tipo de dor. Diferente da dor “comum” (que vem de uma lesão nos tecidos), a dor do nervo nasce no próprio sistema nervoso, nos nervos, na medula ou no cérebro[1]. Você pode entender melhor lendo o nosso guia sobre dor crônica.
Neste artigo, vou te explicar o que é essa condição, por que ela é diferente de outras dores, quais as causas mais comuns e como funciona o tratamento.
O que é dor neuropática
Toda dor é processada pelo sistema nervoso. Mas no quadro neuropático, o problema está no próprio sistema nervoso, ele está danificado ou funcionando de forma anormal[1]. É como uma fiação elétrica com curto-circuito: os fios (nervos) enviam sinais errados, e o cérebro interpreta como dor intensa.
Uma revisão sistemática de estudos populacionais estimou que a prevalência de dor com características neuropáticas na população geral fica entre 6,9% e 10%[2]. É uma das formas de dor crônica mais difíceis de tratar com analgésicos comuns, mas responde bem a medicamentos específicos.


Causas da dor neuropática
Neuropatia diabética: uma das causas mais comuns. O excesso de açúcar no sangue danifica os nervos periféricos ao longo dos anos, causando queimação e formigamento nos pés e nas mãos. Segundo o documento de posicionamento da American Diabetes Association, até 50% das pessoas com diabetes desenvolverão alguma forma de neuropatia ao longo da vida[3].
Neuralgia pós-herpética: dor que persiste após o herpes zóster (cobreiro). O vírus danifica o nervo e a dor pode durar meses ou anos. Quanto mais cedo o herpes zóster é tratado, menor o risco[2].
Compressão de nervos: hérnia de disco, síndrome do túnel do carpo, estenose lombar. Quando um nervo é comprimido, pode desenvolver características neuropáticas.
Neuralgia do trigêmeo: dor facial intensa, em choque, considerada uma das piores dores existentes.
Dor pós-cirúrgica: cirurgias podem lesar nervos e causar essa dor persistente.
Outras causas: alcoolismo, quimioterapia, HIV, deficiências vitamínicas (B12), esclerose múltipla.
Características da dor neuropática
A esse tipo de dor tem uma “personalidade” própria que a diferencia de outras dores:
- Queimação: como se a área estivesse pegando fogo.
- Choques elétricos: dor em pontada, fisgada, como um raio.
- Formigamento e dormência: parestesia, como se o membro estivesse “dormindo”.
- Alodinia: dor com estímulos que normalmente não doem, o toque leve do lençol, o vento no rosto.
- Hiperalgesia: um estímulo que deveria doer pouco dói muito mais do que o normal.


Tratamento
Medicamentos de primeira linha: diferente de outras dores, a dor do nervo não responde bem a anti-inflamatórios e analgésicos comuns. As diretrizes do Neuropathic Pain Special Interest Group (NeuPSIG) da IASP recomendam como primeira escolha[4]:
- Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, em dose analgésica, não antidepressiva).
- Inibidores duais da recaptação de serotonina e noradrenalina (duloxetina, venlafaxina).
- Anticonvulsivantes ligantes de α2δ (pregabalina, gabapentina).
Como tratamentos de segunda linha, adesivos de lidocaína 5% e capsaicina em alta concentração (8%) podem ajudar em casos dessa condição localizada[4]. A atualização mais recente das recomendações, publicada em 2025 no Lancet Neurology, confirma esse esquema e inclui também a estimulação magnética transcraniana repetitiva e a toxina botulínica como opções de terceira linha em casos selecionados[5].
Procedimentos: bloqueios nervosos, radiofrequência pulsada e neuromodulação são opções para casos que não respondem a medicamentos.
Tratamento da causa: controlar o diabetes, tratar a compressão nervosa, descomprimir o nervo quando possível. Tratar a causa é sempre o primeiro passo.
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Referências científicas
- Treede RD, Rief W, Barke A, et al. Chronic pain as a symptom or a disease: the IASP Classification of Chronic Pain for the International Classification of Diseases (ICD-11). Pain. 2019;160(1):19-27. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30586067/
- van Hecke O, Austin SK, Khan RA, Smith BH, Torrance N. Neuropathic pain in the general population: a systematic review of epidemiological studies. Pain. 2014;155(4):654-62. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24291734/
- Pop-Busui R, Boulton AJM, Feldman EL, et al. Diabetic neuropathy: a position statement by the American Diabetes Association. Diabetes Care. 2017;40(1):136-154. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27999003/
- Finnerup NB, Attal N, Haroutounian S, et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-73. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25575710/
- Soliman N, Moisset X, Ferraro MC, et al. Pharmacotherapy and non-invasive neuromodulation for neuropathic pain: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2025;24(5):413-428. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40252663/
Sente queimação ou choques que não passam? Compartilhe este artigo. Muitas pessoas sofrem com dor neuropática sem saber que existe tratamento específico.
Perguntas frequentes sobre dor neuropática
O que é dor neuropática e por que ela é diferente de outras dores?
A dor neuropática nasce de um problema no próprio sistema nervoso, não nos tecidos do corpo. É como uma fiação elétrica com curto-circuito: os fios (nervos) enviam sinais errados, e o cérebro interpreta como dor intensa, queimação ou choques. Por isso, analgésicos comuns e anti-inflamatórios não funcionam bem, já que o problema não é uma inflamação, e sim um defeito na transmissão dos sinais.
Quais são os sinais de que minha dor pode ser neuropática?
A dor neuropática tem uma “personalidade” bem própria: queimação (como se a área estivesse pegando fogo), choques elétricos, agulhadas, formigamento e dormência. Um sinal muito característico é sentir dor com coisas que normalmente não doem, como o toque do lençol na pele ou o vento no rosto. Isso se chama alodinia e é muito típico desse tipo de dor.
Sou diabético e sinto queimação nos pés. Isso tem a ver com dor neuropática?
Muito provavelmente, sim. A neuropatia diabética é a causa mais comum de dor neuropática e pode afetar até 50% dos diabéticos. O excesso de açúcar no sangue vai danificando os nervos periféricos ao longo dos anos, causando queimação e formigamento nos pés e nas mãos. Controlar bem o diabetes é o primeiro passo, e existem medicamentos específicos que ajudam muito nessa dor.
Se analgésicos comuns não funcionam, quais remédios tratam a dor neuropática?
Os medicamentos de primeira linha são antidepressivos (como duloxetina e amitriptilina, usados em dose analgésica, não antidepressiva) e anticonvulsivantes (como pregabalina e gabapentina). Também existem tratamentos tópicos, como adesivos de lidocaína. Para casos que não respondem a medicamentos, há procedimentos como bloqueios nervosos e neuromodulação. O importante é buscar um especialista para encontrar a melhor combinação para o seu caso.
Dor neuropática tem cura?
Depende da causa. Quando a neuropatia é recente e reversível, como na deficiência de B12 tratada a tempo, é possível reverter. Em causas crônicas, como diabetes de longa data, o objetivo é controlar os sintomas, proteger o nervo do dano adicional e devolver qualidade de vida. Muitos pacientes atingem níveis mínimos de dor e voltam a dormir bem.
Posso usar só pomada para dor neuropática?
Existem formulações tópicas com lidocaína ou capsaicina que ajudam em áreas localizadas, como na neuralgia pós-herpética. Elas são coadjuvantes, e quase nunca substituem o tratamento sistêmico quando a dor é intensa ou difusa. Use sempre com orientação médica, porque aplicação errada pode causar queimadura química.
Canabidiol funciona para dor neuropática?
Há evidências crescentes do uso de canabinoides em casos selecionados de dor neuropática refratária. No Brasil, a prescrição é possível com acompanhamento médico e autorização da Anvisa. Não é primeira linha de tratamento, mas pode ser considerado quando outras opções falharam.
Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.
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