“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”
Dr. Ney Leal
Neste artigo
- Um novo remédio para dor, de uma classe que não existia
- Como a dor viaja: os canais de sódio
- O canal que só existe no nervo da dor
- O primeiro da classe: a suzetrigina
- E para a dor crônica?
- Por que a dor virou prioridade da ciência?
- Quando chega ao Brasil?
- Por que isso é uma luz no fim do túnel?
- Referências
- Perguntas frequentes
“Doutor, eu já tomei de tudo.” Escuto essa frase com frequência no consultório. E, quando a gente olha a lista, quase sempre é verdade: anti-inflamatórios, analgésicos comuns, opioides, antidepressivos usados para dor, remédios para os nervos. Tudo isso pertence a algumas poucas famílias de remédios que a medicina usa há décadas.
Por isso eu quero contar uma notícia que considero das mais importantes da medicina da dor nos últimos anos. Surgiu um novo remédio para dor que não pertence a nenhuma dessas famílias. É o primeiro de uma classe nova. Ele ainda não está no “tudo” de ninguém.
Antes de qualquer coisa, um aviso honesto: este não é um texto sobre um remédio para tomar agora. Ele ainda não chegou ao Brasil e, por enquanto, foi aprovado só para um tipo de dor. É um texto sobre um caminho novo que se abriu.
Um novo remédio para dor, de uma classe que não existia
Em janeiro de 2025, a agência que regula remédios nos Estados Unidos, a FDA, aprovou a suzetrigina (nome comercial Journavx). Segundo a própria FDA, ela é o primeiro remédio aprovado de uma nova classe de tratamento da dor[1]. O fabricante, a Vertex, foi além: chamou de a primeira classe nova de remédio para dor aprovada em mais de 20 anos[2].
Não é um novo anti-inflamatório. Não é um novo opioide. Não é um antidepressivo nem um remédio para os nervos com uma roupagem diferente. Ele age num ponto do caminho da dor em que nenhum remédio tomado pela boca tinha conseguido agir com essa precisão.

Como a dor viaja: os canais de sódio
A dor viaja pelos nervos como eletricidade. Quando você bate o dedo na quina da mesa, o nervo do dedo gera um pequeno sinal elétrico, que corre até a medula e depois até o cérebro. Só quando chega lá é que você sente.
Para esse sinal andar, o nervo precisa abrir pequenas portas na sua parede, por onde entra sódio. São os canais de sódio. Sem eles, o sinal não anda. O corpo tem nove tipos diferentes desses canais[3], espalhados por ele todo.
A medicina já sabe bloquear essas portas há muito tempo. É o que faz a anestesia que o dentista aplica: a lidocaína fecha os canais de sódio e o sinal da dor para no caminho. O problema é que ela bloqueia todos os tipos de canal de sódio dos nervos, sem escolher, e em dose alta pode ser fatal[4]. Por isso ela é usada aplicada num ponto, e não como comprimido para a dor no corpo todo.
É como querer silenciar um único alarme de um prédio cortando a luz do bairro inteiro.

O canal que só existe no nervo da dor
A virada veio de um tipo específico de canal de sódio, chamado NaV1.8. Ele aparece nos nervos que levam a sensação até a medula, e o seu papel é justamente transmitir o sinal da dor[3]. Pesquisadores do próprio fabricante analisaram mais de mil amostras de tecido do cérebro e da medula, colhidas depois da morte e reunidas em dois grandes bancos públicos de dados, e não encontraram sinal de que o gene desse canal esteja ativo no sistema nervoso central[5].
É aí que está a diferença. Um remédio que bloqueia só o NaV1.8 desliga o fio da dor sem mexer no resto do prédio. A suzetrigina faz exatamente isso: bloqueia o NaV1.8 de forma seletiva e impede o sinal da dor de chegar à medula e ao cérebro[3]. Como ela não age no cérebro, a expectativa é de poucos efeitos como sonolência e de baixo risco de vício[6].
Parece simples, mas levou décadas. Antes, os cientistas apostaram em outro canal, o NaV1.7. Pessoas que nascem com esse canal sem funcionar não sentem dor, o que parecia o alvo perfeito. Só que os remédios contra o NaV1.7 se mostraram tóxicos e não deram certo[4]. A suzetrigina é a primeira vez que essa ideia, bloquear só o canal da dor, virou remédio aprovado.
O primeiro da classe: a suzetrigina
A suzetrigina foi aprovada para dor aguda moderada a forte em adultos, incluindo a dor depois de cirurgia[3]. Dor aguda é aquela que tem começo e fim, como a de um pós-operatório ou de uma lesão. O uso foi estudado por até 14 dias[3].
Ela foi testada em dois grandes estudos, com mais de 2 mil pessoas, depois de cirurgias de abdômen (abdominoplastia) e de joanete. Aliviou a dor bem mais que um comprimido sem efeito, e o alívio foi parecido com o de um opioide combinado com paracetamol, usado como comparação[7]. Uma revisão de 2026, juntando cinco estudos com quase 3 mil pacientes, encontrou menos efeitos colaterais com ela do que com o comprimido sem efeito e com o opioide[8].
Os efeitos colaterais mais comuns foram coceira, espasmos musculares, alteração em um exame de sangue do músculo e manchas na pele[1]. Como todo remédio, tem interações: não deve ser tomada com alguns antifúngicos e antibióticos, e o suco de toranja (grapefruit) deve ser evitado[3].
Ou seja: para a dor aguda, ela chega como uma alternativa sem opioide. E isso, por si só, já é muito.
E para a dor crônica?
Aqui eu preciso ser honesto, porque é a pergunta de quem “já tomou de tudo”: para a dor crônica, ainda não sabemos.
O primeiro teste em dor crônica foi em pessoas com dor ciática de longa data. A dor caiu 2,02 pontos, numa escala de 0 a 10, com a suzetrigina, e 1,98 pontos com o comprimido sem efeito. Na prática, a mesma coisa. O próprio fabricante reconheceu que não houve diferença entre os grupos[9].
Isso não encerra a história. Um remédio anterior da mesma família, que não chegou a ser aprovado, tinha reduzido a dor em estudos menores de dor neuropática crônica[5]. Estudos maiores estão em andamento, inclusive na dor da neuropatia diabética[6], e outros remédios da mesma classe já estão sendo testados[4]. Dor crônica é mais complicada que dor aguda: muitas vezes o problema não está só no nervo que leva o sinal, mas também na forma como o sistema nervoso passou a processar a dor. Expliquei essas diferenças no texto sobre os três tipos de dor. Pode ser que essa classe funcione melhor em alguns tipos do que em outros. Os próximos anos vão dizer.
Por que a dor virou prioridade da ciência?
Essa novidade não chegou por acaso, e o motivo é triste. Nos Estados Unidos, a dependência de opioides, remédios muito usados para dor, virou uma crise nacional, com muitas mortes por overdose. Em 2018, como resposta, os Institutos Nacionais de Saúde, o principal órgão público de pesquisa em saúde do país, lançaram um programa chamado HEAL. O Congresso americano separou 500 milhões de dólares em dinheiro novo só naquele ano, e uma das metas centrais é criar tratamentos para dor eficazes e que não viciem[10].
E não é qualquer país colocando a dor no topo da lista. Os Estados Unidos estão entre os países que mais criam remédios novos, e os pesquisadores americanos assinam uma fatia desproporcional dos estudos mais influentes do mundo[11]. Quando um país assim decide que a dor é prioridade, os resultados começam a aparecer.
A suzetrigina é o primeiro remédio aprovado dessa nova fase, e não deve ser o último. Depois da aprovação, laboratórios do mundo todo passaram a correr atrás de novos remédios da mesma classe[12]. E há outras ideias, de outras classes, sendo estudadas com o mesmo objetivo: aliviar a dor sem os riscos dos opioides[10].
Quando chega ao Brasil?
Ainda não há previsão. O remédio não está à venda no Brasil, e para isso ele precisa passar por todo o processo de aprovação da Anvisa. Na minha estimativa, entre a aprovação lá fora e a venda aqui, é coisa de cinco anos ou mais.
Por isso, desconfie de qualquer oferta de “suzetrigina importada” na internet. Remédio novo, sem registro e sem acompanhamento, é risco, não esperança.
Por que isso é uma luz no fim do túnel?
Durante décadas, os remédios para dor andaram em círculos dentro das mesmas famílias. A suzetrigina mostra que existe uma porta nova, e que a ciência finalmente conseguiu passar por ela: bloquear a dor no nervo, de forma seletiva, sem mexer no cérebro. E ela é a primeira de uma fila, não a única.
Ela não vai mudar o seu tratamento amanhã. Mas quando alguém me diz que já tentou tudo, hoje eu posso responder com honestidade que o “tudo” está ficando maior. E que, enquanto essa novidade não chega, ainda há muito a ser feito com o que já existe, combinando remédios, exercício, procedimentos e cuidado com o sono e com a mente.
Se você convive com dor e sente que esgotou as opções, vale procurar um médico especialista em dor. Muitas vezes, o que parece “tudo” é só uma parte do que pode ser feito.
Referências
- U.S. Food and Drug Administration. FDA approves novel non-opioid treatment for moderate to severe acute pain. Comunicado à imprensa, 30 de janeiro de 2025. FDA
- Vertex Pharmaceuticals. Vertex announces FDA approval of JOURNAVX (suzetrigine), a first-in-class treatment for adults with moderate-to-severe acute pain. Comunicado à imprensa, 30 de janeiro de 2025. Vertex
- Vertex Pharmaceuticals. JOURNAVX (suzetrigine) tablets: prescribing information. U.S. Food and Drug Administration; atualizada em 2026. DailyMed
- Wood JN, Yan N, Huang J, et al. Sensory neuron sodium channels as pain targets; from cocaine to Journavx (VX-548, suzetrigine). J Gen Physiol. 2025;157(4). PubMed
- Osteen JD, Immani S, Tapley TL, et al. Pharmacology and mechanism of action of suzetrigine, a potent and selective NaV1.8 pain signal inhibitor for the treatment of moderate to severe pain. Pain Ther. 2025;14(2):655-674. PubMed
- Chen SL, Liu MA, Swisher MW. Suzetrigine, a selective NaV1.8 inhibitor in acute and chronic pain: mechanistic insights, clinical outcomes, and future perspectives. Curr Opin Anaesthesiol. 2026;39(2):183-187. PubMed
- Bertoch T, D’Aunno D, McCoun J, et al. Suzetrigine, a nonopioid NaV1.8 inhibitor for treatment of moderate-to-severe acute pain: two phase 3 randomized clinical trials. Anesthesiology. 2025;142(6):1085-1099. PubMed
- Irfan Q, Zaidi SMM, Zohair M, et al. Safety and efficacy of suzetrigine (VX-548) for acute moderate to severe pain in adults: a systematic review and meta-analysis. J Clin Anesth. 2026;111:112156. PubMed
- Vertex Pharmaceuticals. Vertex announces results from phase 2 study of suzetrigine for the treatment of painful lumbosacral radiculopathy. Comunicado à imprensa, 18 de dezembro de 2024. Business Wire
- Karp BI, Baker RG. Pain management research from the NIH HEAL Initiative. Front Pain Res (Lausanne). 2023;4:1266783. PubMed
- National Science Board, National Science Foundation. Publications output: U.S. trends and international comparisons. Science and Engineering Indicators 2025. NSF
- Wu Z, Lu D. Advances in the discovery of selective NaV1.8 inhibitors for pain management. Eur J Med Chem. 2025;302(Pt 2):118326. PubMed
Perguntas frequentes
Qual é o novo remédio para dor?
A suzetrigina é um opioide?
Não. Ela age nos nervos, fora do cérebro, bloqueando um canal de sódio específico da dor. Nos estudos depois de cirurgia, aliviou a dor de forma parecida com um opioide combinado com paracetamol[7].
A suzetrigina serve para dor crônica?
Quando a suzetrigina chega ao Brasil?
Não há previsão. Ela ainda precisa passar pela aprovação da Anvisa, o que costuma levar anos. Desconfie de ofertas de suzetrigina importada na internet.
A suzetrigina vicia?
Como ela age fora do cérebro, a expectativa é de baixo risco de vício[6]. Mas é um remédio novo, aprovado em 2025, e o uso em longo prazo ainda não foi estudado.
Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.
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