Se você já saiu de uma consulta com a sensação de que ninguém explicou direito que tipo de dor você tem, este texto é pra você. Existem três grandes tipos de dor, e entender qual é a sua muda quase tudo: o exame que faz sentido pedir, o remédio que costuma funcionar e até a paciência que o tratamento vai exigir. A dor nociceptiva é a mais conhecida, aquela que todo mundo já sentiu ao torcer o tornozelo ou encostar a mão na panela quente. Mas ela é só uma das três. As outras duas, a neuropática e a nociplástica, confundem muita gente, e não é raro confundirem médicos também.

No consultório, eu explico essa diferença quase toda semana. E quando o paciente finalmente entende em qual “gaveta” a dor dele se encaixa, dá pra ver o alívio no rosto: não é que a dor sumiu, é que ela deixou de ser um monstro sem nome. Vou te explicar do mesmo jeito que explico ali, sem termos complicados e com uma analogia que ajuda a fixar.

Afinal, o que é dor nociceptiva?

A dor nociceptiva é a dor “de fábrica”, a que o corpo foi feito pra sentir. Ela acontece quando um tecido do corpo (pele, músculo, osso, articulação) sofre um dano real ou está ameaçado, e sensores espalhados por ali, chamados nociceptores, disparam um aviso pro cérebro1. É o sistema funcionando exatamente como deveria: existe um problema físico, e a dor te obriga a prestar atenção nele.

Pensa no que acontece quando você pisa num prego, queima o dedo ou machuca o joelho numa queda. A dor é aguda, costuma ter um lugar certo (“dói aqui”), e some conforme o tecido cicatriza. Uma cólica, uma dor de dente, a dor depois de uma cirurgia, a dor da artrose no joelho: tudo isso é, na maior parte, dor nociceptiva. É a categoria mais comum e a mais fácil de entender, porque a causa está à vista.

Os três tipos de dor, lado a lado

A melhor imagem que encontrei pra explicar os três tipos é a de um alarme de incêndio ligado à fiação da casa. Segura essa imagem, porque ela vai amarrar tudo:

  • Dor nociceptiva: o alarme toca porque tem fogo de verdade. Existe um problema real no ambiente (o tecido machucado), a fiação está boa, e o alarme faz o trabalho dele. Você apaga o fogo, o alarme se cala.
  • Dor neuropática: o problema é no fio. Não tem incêndio, mas um fio está desencapado ou rompido. O alarme dispara sozinho por causa do curto, não por causa de fogo. Aqui, o “fio” é um nervo lesionado ou doente.
  • Dor nociplástica: a central do alarme desregulou. Não tem fogo e os fios estão inteiros, mas a central ficou sensível demais e passou a disparar ao menor sinal, às vezes sem sinal nenhum. O sistema de dor, como um todo, ficou com o “volume” alto demais.

Essa divisão em três não é invenção de um médico só. É a classificação oficial da Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), a maior autoridade mundial no assunto, e é ensinada assim no mundo todo1,4. Veja os três resumidos:

Tipo de dorO que aconteceuComo costuma doerExemplos comuns
NociceptivaDano ou ameaça a um tecido (o “fogo”)Localizada, piora ao mexer ou pressionar; melhora quando a lesão cicatriza ou a causa é tratadaTorção, fratura, dor pós-cirúrgica, cólica, artrose
NeuropáticaLesão ou doença em um nervo (o “fio”)Queimação, choque, formigamento, dormênciaHérnia comprimindo o nervo, dor pós-herpes, neuropatia do diabetes
NociplásticaSistema nervoso sensibilizado (a “central”)Difusa, muda de lugar, sem lesão que explique a intensidadeFibromialgia, algumas dores crônicas de cabeça e intestino

Dor neuropática: quando o problema é no fio

A dor neuropática nasce de um nervo que foi lesionado ou adoeceu1. Como quem dispara o alarme é o próprio fio, ela tem uma assinatura bem característica, diferente da dor nociceptiva: em vez de um “dói quando aperto”, a pessoa descreve queimação, choques, agulhadas, formigamento ou dormência. Muitas vezes a área fica estranha ao toque, e até o roçar do lençol pode incomodar.

Exemplos que vejo no consultório: a dor que desce pela perna quando uma hérnia de disco comprime o nervo ciático, a dor que sobra depois de um herpes-zóster (aquela “cobreiro”), e a neuropatia que aparece nos pés de quem tem diabetes há muitos anos. Se você quiser entender essa categoria com calma, eu já escrevi um texto só sobre ela, sobre a dor neuropática e seus sintomas de queimação e choque.

Dor nociplástica: quando a central desregula

A dor nociplástica é a mais nova das três categorias e a que mais gera confusão, porque nela os exames costumam vir normais. Não há um tecido em pedaços nem um nervo rompido. O que mudou foi o jeito como o sistema nervoso processa a dor: ele ficou sensibilizado, num fenômeno que os cientistas chamam de sensibilização central, e passou a amplificar sinais que, num sistema calibrado, nem seriam sentidos4.

O exemplo clássico, o “protótipo” dessa categoria, é a fibromialgia4. A dor é difusa, anda pelo corpo, vem acompanhada de cansaço e sono ruim, e a intensidade não bate com o que os exames mostram. Isso não quer dizer que “é da cabeça” ou que a pessoa está inventando: a dor é real, o que está diferente é o volume do alarme. Se esse é o seu caso, vale ler os textos específicos sobre dor nociplástica e sobre fibromialgia, onde aprofundo cada um.

Por que é tão difícil separar os três (e por que às vezes se misturam)

Aqui vem a parte honesta, que raramente te contam. Separar os três tipos na prática é difícil, e não existe um único exame de sangue ou de imagem que bata o carimbo2. Uma revisão que juntou toda a literatura sobre o tema concluiu que a distinção depende de um conjunto de sinais avaliados juntos, não de um teste isolado2. Um estudo posterior, reunindo dezenas de especialistas do mundo todo, tentou justamente listar quais sinais ajudam a diferenciar um tipo do outro3.

E tem outro detalhe que muda tudo: na vida real, os três tipos se misturam com frequência na mesma pessoa. Por isso muitos especialistas preferem enxergar a dor como um continuum, uma linha contínua, em vez de três caixinhas separadas1. Uma pessoa com uma hérnia de disco antiga, por exemplo, pode ter dor nociceptiva na articulação desgastada, dor neuropática pelo nervo comprimido e, com os anos, um componente nociplástico de sistema sensibilizado, tudo ao mesmo tempo. É o que os médicos chamam de dor mista. A artrose é um exemplo comum: começa como dor nociceptiva, do desgaste da articulação, mas em algumas pessoas, com os anos, ganha um componente nociplástico, e passa a doer mais do que o desgaste sozinho explicaria. Entender isso evita a armadilha de procurar “o culpado único” quando são vários.

Como o médico descobre qual é a sua

Já que não há um teste único, como é que a gente decide? Na prática, o diagnóstico se monta como um quebra-cabeça, juntando várias peças2,3:

  • A sua história. Desde quando dói, o que melhora, o que piora, como você descreve a dor (aperto? queimação? difusa?). Essa conversa é, de longe, a peça mais valiosa.
  • O exame físico. Testar a sensibilidade, os reflexos, a força, e ver como a área reage ao toque e ao movimento.
  • Exames de imagem e de sangue, quando fazem sentido, mais pra confirmar ou descartar suspeitas do que pra “achar a dor”. Vale lembrar que exame normal não significa “não tem nada”.

É por isso que uma boa consulta de dor não tem pressa: é conversando e examinando que se descobre em qual gaveta a sua dor se encaixa, ou em quantas gavetas ela está ao mesmo tempo.

Por que saber o tipo muda o tratamento

Essa não é uma discussão só de nomes bonitos. Saber o tipo de dor muda o caminho do tratamento, porque cada um responde a coisas diferentes:

  • Na nociceptiva, faz sentido cuidar do tecido: repouso na medida certa, anti-inflamatórios em alguns casos, fisioterapia, tratar a artrose ou a lesão que está por trás.
  • Na neuropática, os anti-inflamatórios comuns costumam ajudar pouco. Ela responde melhor a medicamentos que agem no nervo e, em casos selecionados, a procedimentos.
  • Na nociplástica, o foco é “baixar o volume” do sistema: exercício bem dosado, sono, cuidado com a parte emocional e medicamentos que agem no processamento central da dor.

Ou seja: dar o remédio de uma categoria pra uma dor de outra é como jogar água achando que é incêndio, quando o problema está na fiação. Não resolve, e às vezes frustra o paciente que já tentou “de tudo”. Nada disso, claro, substitui uma consulta. Não comece nem troque nenhum remédio por conta própria.

Quando procurar um especialista em dor

Se a sua dor já passou de três meses, se você anda de médico em médico sem uma explicação que feche, ou se os exames vêm normais mas a dor continua atrapalhando o seu dia, vale procurar um profissional da medicina da dor. Esse é o profissional treinado justamente pra montar esse quebra-cabeça e desenhar um tratamento pro tipo (ou os tipos) de dor que você tem. Botar um nome no que você sente já tira um peso enorme das costas.

Referências

  1. Cohen SP, Vase L, Hooten WM. Chronic pain: an update on burden, best practices, and new advances. Lancet. 2021;397(10289):2082-2097. doi:10.1016/S0140-6736(21)00393-7
  2. Shraim MA, Massé-Alarie H, Hodges PW. Methods to discriminate between mechanism-based categories of pain experienced in the musculoskeletal system: a systematic review. Pain. 2021;162(4):1007-1037. doi:10.1097/j.pain.0000000000002113
  3. Shraim MA, Sluka KA, Sterling M, et al. Features and methods to discriminate between mechanism-based categories of pain experienced in the musculoskeletal system: a Delphi expert consensus study. Pain. 2022;163(9):1812-1828. doi:10.1097/j.pain.0000000000002577
  4. Atta AA, Ibrahim WW, Mohamed AF, Abdelkader NF. Microglia polarization in nociplastic pain: mechanisms and perspectives. Inflammopharmacology. 2023;31(3):1053-1067. doi:10.1007/s10787-023-01216-x

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre dor nociceptiva e neuropática?

A dor nociceptiva vem de um tecido machucado (osso, músculo, articulação, pele) com o sistema de nervos funcionando bem, e costuma doer de forma localizada, como um aperto ou uma pontada. A neuropática vem de um nervo lesionado ou doente e costuma dar queimação, choque, formigamento ou dormência. Numa imagem: na nociceptiva “tem fogo de verdade”; na neuropática, “o fio está desencapado”1.

Como é a dor nociceptiva? Quais os sintomas?

Ela costuma ter um lugar certo, piorar quando você mexe ou pressiona a região, e melhorar conforme o tecido cicatriza. É a dor de uma torção, de uma fratura, de uma cólica ou da artrose. Como a causa costuma estar à vista, é a mais fácil das três de entender e, em geral, a mais fácil de tratar1.

Dá pra ter mais de um tipo de dor ao mesmo tempo?

Sim, e é comum. Na vida real os três tipos se misturam com frequência na mesma pessoa, tanto que muitos especialistas enxergam a dor como uma linha contínua, não como três caixinhas separadas1. Uma hérnia antiga, por exemplo, pode ter componente nociceptivo, neuropático e nociplástico ao mesmo tempo.

Existe um exame que diz qual tipo de dor eu tenho?

Não existe um exame único que carimbe o diagnóstico. A distinção se faz juntando várias peças: a sua história, o exame físico e, quando fazem sentido, exames de imagem e de sangue2,3. Por isso a conversa detalhada com o médico é a parte mais importante da consulta.

Exame normal quer dizer que não tenho nada?

Não. Na dor nociplástica, por exemplo, os exames costumam vir normais justamente porque o problema não está num tecido rompido, e sim no jeito como o sistema nervoso processa a dor4. Exame normal descarta algumas coisas, mas não descarta a sua dor, que é real.

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Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.

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