“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”

Dr. Ney Leal

Talvez você já tenha vivido essa cena: dor que não passa, exames todos normais, médico atrás de médico dizendo que “está tudo bem”, mas a dor continua ali, real, diária, exaustiva. Se for o seu caso, este texto pode ser uma chave que você procurava há tempos. A medicina hoje reconhece um terceiro tipo de dor, com mecanismo próprio, que não aparece em ressonância, raio-x ou exame de sangue. O nome dela é dor nociplástica.

Neste guia, eu vou te explicar de onde vem essa dor, por que ela confunde tanto profissionais e pacientes, quais condições mais comuns se enquadram nesse mecanismo e o que realmente ajuda no tratamento. Sem milagres, sem promessas, com base na ciência mais atual sobre o assunto.

Dor nociplástica: o que é, afinal?

A dor nociplástica é definida pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) como uma dor que surge de alterações no processamento da dor pelo sistema nervoso central, sem que haja lesão tecidual evidente nem dano em nervo identificável.[1] Em outras palavras, o sistema que detecta e regula a dor passa a funcionar de forma amplificada, mesmo na ausência de uma causa estrutural clara.

Pense em um alarme de incêndio que começa a disparar com a chama do fogão. Não há fogo de verdade ameaçando a casa, mas o sensor está calibrado errado e interpreta um estímulo pequeno como ameaça grave. Na dor nociplástica, o sistema nervoso passa a operar nessa lógica: gatilhos que antes seriam neutros, ou no máximo um leve desconforto, viram dor intensa e contínua.

O termo foi proposto em 2016 por Eva Kosek e colegas, em artigo publicado na revista Pain,[2] e adotado oficialmente pela IASP em 2017 como o terceiro descritor mecanístico de dor, ao lado dos dois já conhecidos.

Os três tipos de dor: nociceptiva, neuropática e nociplástica

Para entender o que torna a dor nociplástica tão diferente, vale comparar com os outros dois tipos que a medicina conhece bem há mais tempo.

Tipo de dor Causa Exemplo Aparece em exames?
Nociceptiva Lesão ou inflamação real em tecidos (pele, músculo, articulação, osso) Entorse de tornozelo, artrose, dor pós-cirúrgica Sim, costuma aparecer em raio-x, ressonância ou exame físico
Neuropática Dano ou doença em nervos do sistema nervoso periférico ou central Neuralgia pós-herpética, dor do diabético, neuralgia do trigêmeo Sim, geralmente identificável em eletroneuromiografia ou exames específicos
Nociplástica Alteração no processamento da dor pelo sistema nervoso, sem lesão estrutural identificável Fibromialgia, dor pós-COVID prolongada, certas dores crônicas refratárias Não, exames de imagem e laboratoriais costumam vir normais

Importante: esses três tipos podem coexistir em uma mesma pessoa. Alguém com hérnia de disco antiga (componente nociceptivo) pode desenvolver dor nociplástica sobreposta, com a dor se espalhando para regiões onde não há lesão alguma.[3]

Comparativo dos três tipos de dor reconhecidos pela medicina: nociceptiva, neuropática e nociplástica

Por que esse tipo de dor confunde tanto médicos e pacientes

A medicina ocidental cresceu acostumada a buscar a causa visível. Se dói, a lógica diz, alguma coisa tem que aparecer no exame. Quando isso não acontece, vem o desconforto de todos os lados.

O paciente sai do consultório com a frase mais cruel possível: “está tudo normal, não tem nada errado com você”. Mas a dor continua. E vem a peregrinação: ortopedista, reumatologista, neurologista, mais exames, mais “não achei nada”. A pessoa começa a ouvir, nas entrelinhas ou diretamente, que talvez seja “psicológico”, “estresse”, “frescura”. Isso machuca tanto quanto a dor física.

Do lado médico, também há uma dificuldade real. O treinamento tradicional ensina a procurar a lesão. Quando nenhum exame mostra alteração, falta uma linguagem comum para nomear o que está acontecendo. A boa notícia é que isso vem mudando rápido nos últimos anos, conforme a comunidade científica internacional consolida critérios para identificar a dor nociplástica de forma sistemática.[4]

Lembro de uma vez que, durante a consulta, a paciente relatava fortes dores difusas há muitos anos, acompanhadas de uma sensação de cansaço extremo, de sono não reparador e de uma sensação constante de incompreensão por já ter ouvido diversas vezes que “não tinha nada”. Mais do que discutir apenas critérios diagnósticos de fibromialgia, procurei criar um espaço seguro para que ela pudesse falar sem interrupções e sem a sensação de precisar provar a sua dor.

Expliquei de forma clara o conceito de dor nociplástica, validando o sofrimento que vinha enfrentando, e percebi que, pela primeira vez em muito tempo, ela se sentiu verdadeiramente acolhida. Ao final da consulta, emocionada, comentou que sair dali entendendo que sua dor era real e que existia uma explicação científica para o que sentia já representava um alívio importante.

Quais condições são exemplos de dor nociplástica

O conceito de dor nociplástica ajuda a entender o mecanismo de várias condições que antes pareciam soltas no mapa médico. Algumas das mais comuns:

  • Fibromialgia: talvez o exemplo mais clássico. Dor difusa pelo corpo, fadiga, sono ruim, sem inflamação ou lesão identificável.
  • Síndrome do intestino irritável: dor abdominal recorrente, alterações intestinais, exames normais. Pesquisas indicam mecanismo nociplástico no eixo cérebro-intestino.
  • Dor pélvica crônica e vulvodínia: dor genital ou pélvica persistente sem causa estrutural definida.
  • Cefaleia do tipo tensional crônica: diferente da tensional clássica, a forma crônica frequentemente envolve componente nociplástico.
  • Dor pós-COVID prolongada: muitos pacientes com COVID longa apresentam dor que se encaixa no padrão nociplástico.
  • Dor lombar crônica não específica: em parte dos casos de lombalgia crônica, mesmo após tratamento da causa inicial, persiste um componente nociplástico que mantém a dor.
  • Síndrome dolorosa miofascial difusa e algumas dores articulares sem artrite ativa.

Como funciona a sensibilização central

O mecanismo principal por trás da dor nociplástica chama-se sensibilização central. Em termos simples, é uma mudança no jeito como o sistema nervoso central interpreta e amplifica os sinais de dor.

Imagine o volume da TV. Normalmente, você ajusta para um nível confortável. Imagine agora que alguém regula o controle de modo que qualquer som, mesmo um sussurro, sai no volume máximo. Não é o sussurro que mudou, foi o sistema que passou a amplificar tudo. Na sensibilização central, o sistema nervoso passa a tratar estímulos comuns, como o toque da roupa, a pressão de sentar ou uma mudança de temperatura, como se fossem dor.

Dois fenômenos clínicos costumam aparecer:

  • Alodinia: dor causada por um estímulo que normalmente não dói. Um abraço, o lençol na pele, água no chuveiro.
  • Hiperalgesia: dor desproporcionalmente intensa diante de um estímulo que deveria gerar incômodo leve. Uma agulhada no exame de sangue que dói por horas, por exemplo.

Esses sinais não estão na imaginação. Estudos com ressonância magnética funcional mostram alterações reais na atividade cerebral de pessoas com dor nociplástica, especialmente em áreas ligadas ao processamento emocional e sensorial da dor.[2]

Como o médico investiga sem teste único

Não existe, hoje, um exame de sangue, imagem ou neurofisiológico que feche o diagnóstico de dor nociplástica isoladamente. O diagnóstico se faz pela história clínica e pelo exame físico, seguindo critérios propostos em 2021 pela IASP para dor nociplástica musculoesquelética crônica.[3]

Em linhas gerais, o médico avalia:

  • Duração: dor por pelo menos três meses.
  • Distribuição: dor em mais de uma região do corpo, frequentemente difusa ou multifocal.
  • Ausência de lesão proporcional: exames de imagem, laboratoriais e exame físico não revelam lesão que justifique a intensidade ou a extensão da dor.
  • Sinais de hipersensibilidade: presença de alodinia, hiperalgesia ou hipersensibilidade ao toque, pressão, temperatura ou sons.
  • Sintomas associados: distúrbios de sono, fadiga, dificuldade de concentração, ansiedade e depressão aparecem com frequência.

Exames complementares servem para excluir outras causas, não para confirmar a nociplástica. Ou seja, a ressonância normal não é um problema do exame, é justamente um dado importante que ajuda no diagnóstico.

O que funciona no tratamento (e o que não funciona)

Aqui está a parte mais importante: dor nociplástica responde mal aos tratamentos pensados para dor nociceptiva. Anti-inflamatórios, infiltrações, cirurgias e até opioides costumam ter pouco efeito, e muitas vezes geram efeitos colaterais sem benefício real. A abordagem precisa ser diferente.[2][5]

Estratégias com boa evidência

  • Exercício aeróbio regular: talvez a intervenção com melhor evidência. Caminhada, natação, hidroginástica, bicicleta. O segredo é a progressão lenta e a constância, não a intensidade.
  • Antidepressivos duais (duloxetina, amitriptilina): não porque a dor seja psicológica, mas porque agem nas mesmas vias de modulação da dor no sistema nervoso central.
  • Terapia cognitivo-comportamental: ajuda a reorganizar a relação com a dor, reduzir o medo do movimento e melhorar funcionalidade.
  • Mindfulness e práticas de regulação: evidência crescente em reduzir a percepção e o impacto da dor.
  • Higiene de sono: sono ruim amplifica a sensibilização central. Tratar o sono é tratar a dor.

Estratégias com evidência ainda em construção

  • Ketamina em infusão: mostra benefício em casos refratários de fibromialgia e dor crônica grave, especialmente quando outras estratégias falharam. O efeito tende a ser temporário e exige supervisão médica especializada. Vou dedicar um post completo a esse tema em breve.
  • Canabidiol (CBD): apesar da popularidade comercial, um ensaio clínico randomizado publicado em 2025 no Annals of the Rheumatic Diseases com 200 pacientes mostrou que 50 mg de CBD por dia não foi superior ao placebo para reduzir dor em pacientes com fibromialgia. Na verdade, a diferença na pesquisa até favoreceu levemente o placebo.[6] A evidência atual não sustenta o entusiasmo do mercado, embora produtos com THC associado tenham efeito modesto em algumas situações específicas de dor neuropática.

O que costuma não funcionar

  • Anti-inflamatórios em uso prolongado.
  • Opioides (perdem efeito rápido e podem até piorar a dor por hiperalgesia induzida).
  • Cirurgias quando não há lesão proporcional ao sintoma.
  • Repouso prolongado, que costuma piorar fadiga e desencadeia mais sensibilização.
Estratégias de tratamento com evidência para dor nociplástica e o que não funciona

Quando procurar um especialista em dor

Se você convive com dor há mais de três meses, fez vários exames que vieram normais, já passou por mais de um médico sem resposta clara e a dor está atrapalhando sono, humor ou rotina, vale procurar um médico especialista em dor. A medicina da dor existe justamente para casos em que a explicação fácil não aparece e o tratamento precisa ser pensado de forma diferente.

Reconhecer que a dor é nociplástica não significa que ela é menos real. Significa exatamente o contrário: dá nome ao que você sente, valida sua experiência e abre caminho para um tratamento que faz sentido com o mecanismo certo.

Referências

  1. International Association for the Study of Pain (IASP). Terminology: Nociplastic Pain. iasp-pain.org
  2. Kosek E, Cohen M, Baron R, et al. Do we need a third mechanistic descriptor for chronic pain states? Pain. 2016 Jul;157(7):1382-1386. doi:10.1097/j.pain.0000000000000507
  3. Kosek E, Clauw D, Nijs J, et al. Chronic nociplastic pain affecting the musculoskeletal system: clinical criteria and grading system. Pain. 2021 Nov 1;162(11):2629-2634. doi:10.1097/j.pain.0000000000002324
  4. Fitzcharles MA, Cohen SP, Clauw DJ, Littlejohn G, Usui C, Häuser W. Nociplastic pain: towards an understanding of prevalent pain conditions. Lancet. 2021 May 29;397(10289):2098-2110. doi:10.1016/S0140-6736(21)00392-5
  5. Thapa R, Ang D. Nociplastic pain: A practical guide to chronic pain management in the primary care setting. Cleve Clin J Med. 2025 Apr 1;92(4):236-247. doi:10.3949/ccjm.92a.24101
  6. Rasmussen MU, Christensen R, Wæhrens EE, et al. Cannabidiol versus placebo in patients with fibromyalgia: a randomised, double-blind, placebo-controlled, parallel-group, single-centre trial. Ann Rheum Dis. 2025;85(3):566-574. doi:10.1016/j.ard.2025.07.008

Perguntas frequentes

Dor nociplástica é o mesmo que fibromialgia?

Não exatamente. A fibromialgia é o exemplo clínico mais conhecido de dor nociplástica, mas o conceito é mais amplo. Várias outras condições, como síndrome do intestino irritável, dor pélvica crônica e dor pós-COVID prolongada, também envolvem o mecanismo nociplástico. Toda fibromialgia tem componente nociplástico, mas nem toda dor nociplástica é fibromialgia.

Se os exames estão normais, a dor é psicológica?

Não. A dor nociplástica é tão real quanto qualquer outra. O sistema nervoso está realmente amplificando os sinais de dor, e isso pode ser observado em estudos de imagem cerebral funcional. O fato dos exames estruturais virem normais é uma característica esperada desse tipo de dor, não uma prova de que a dor não existe.

Anti-inflamatório funciona para dor nociplástica?

Costuma funcionar pouco ou nada. Anti-inflamatórios atuam onde há inflamação visível, e na dor nociplástica não há inflamação ativa para combater. O uso prolongado pode trazer efeitos colaterais sem benefício real. O tratamento precisa ser direcionado ao mecanismo certo: modulação do sistema nervoso central, exercício, sono e abordagens comportamentais.

Cirurgia ajuda em dor nociplástica?

Geralmente não. Em alguns casos pode até piorar, especialmente se o paciente já vinha desenvolvendo sensibilização central. A cirurgia faz sentido quando há lesão estrutural proporcional ao sintoma. Operar um achado pequeno na ressonância em quem tem dor amplificada por mecanismo nociplástico costuma trazer decepção.

Dor nociplástica tem cura?

O termo cura é complicado em dor crônica. O mais realista é falar em controle, em melhora significativa da qualidade de vida, em períodos de muito menos dor. Com tratamento adequado, combinando exercício, ajuste de sono, medicamentos certos e suporte psicológico quando necessário, a maioria dos pacientes consegue reduzir bastante o impacto da dor no dia a dia.

Quem faz o diagnóstico de dor nociplástica?

Médicos especialistas em dor, reumatologistas com formação na área e neurologistas familiarizados com o tema são os mais capacitados. O diagnóstico depende de uma boa história clínica, exame físico cuidadoso e aplicação dos critérios atualizados. Não há um teste único que feche o quadro, o que torna a experiência do profissional especialmente importante.

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Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.

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