“O bloqueio do nervo occipital abre uma porta no meio do caminho entre o comprimido que não funciona e o tratamento biológico caro. Não é cirurgia.”
Dr. Ney Leal
Neste artigo
- O que é e como funciona
- Anatomia do nervo occipital
- 5 indicações principais
- Como o procedimento é feito
- Evidência científica
- Duração do efeito e manutenção
- Segurança e efeitos colaterais
- Combinação com outros tratamentos
- Quando essa abordagem não é indicada
- Como funciona no consultório
- Referências científicas
- Perguntas frequentes
O bloqueio occipital é um procedimento ambulatorial usado em pacientes com enxaqueca crônica refratária e cefaleia em salvas. Dura cerca de 10 minutos. Além disso, não exige cirurgia nem sedação. Também tem evidência sólida em condições nas quais os preventivos orais já falharam.
Esse guia explica em detalhe como esse procedimento funciona, quais são as cinco indicações principais, como é feito na prática, o que a ciência mostra, quanto dura o efeito e quando essa abordagem não é a melhor opção. Portanto, é um texto direto, com referências PubMed e ângulo clínico de quem aplica essa técnica todos os dias.
Quem chega aqui costuma chegar do mesmo lugar. Já tentou topiramato. Também tentou amitriptilina ou betabloqueador. No entanto, melhorou pouco. Acorda com medo de acordar. Por isso, o bloqueio occipital entra exatamente nesse cenário, como uma ponte entre os tratamentos orais que não funcionaram e os biológicos modernos, geralmente caros e nem sempre acessíveis pelos planos de saúde.
O que é e como funciona
O bloqueio occipital consiste na injeção de uma mistura de anestésico local (lidocaína ou bupivacaína) com corticoide (dexametasona ou metilprednisolona) no trajeto subcutâneo do nervo occipital maior, na base do crânio. Assim, a técnica interrompe temporariamente a transmissão do sinal de dor desse nervo. Além disso, por mecanismos de convergência neural, o efeito também pode reduzir cefaleia em outras regiões da cabeça.
Não é cirurgia. Tampouco é injeção profunda. A agulha entra apenas alguns milímetros sob a pele. Por isso o procedimento é ambulatorial, sem sedação e com retorno imediato às atividades cotidianas.
O mecanismo é o seguinte. O anestésico local age em minutos, bloqueando a condução nervosa imediata. Já o corticoide, embora demore alguns dias para fazer efeito, sustenta a redução de inflamação e sensibilização ao redor do nervo por semanas. Dessa forma, há um alívio inicial rápido seguido de manutenção mais prolongada.
Anatomia do nervo occipital
Em primeiro lugar, o nervo occipital maior nasce da raiz nervosa C2, com contribuição de C3. Em seguida, emerge na base do crânio, perfura o trapézio e sobe pelo couro cabeludo da nuca até o topo da cabeça. Já o occipital menor vem de C2 e C3 e cobre principalmente a região lateral do couro cabeludo.
Por exemplo, coloca a mão na parte de trás da cabeça, logo acima da nuca. Aquele caminho que vai da base do crânio até o topo é exatamente por onde esses nervos passam. O bloqueio occipital atinge esse trajeto.
Inclusive, o detalhe que importa é o seguinte. Esses nervos conversam com o núcleo trigeminal cervical, lá dentro do tronco cerebral. Trata-se do fenômeno chamado convergência trigêmino-cervical. Por isso, bloquear o occipital atrás, na nuca, também pode reduzir dor de enxaqueca sentida na testa, na têmpora ou atrás do olho. Além disso, esse mesmo mecanismo explica por que pacientes com cefaleia cervicogênica respondem tão bem ao tratamento.
No entanto, vale destacar que a precisão da técnica depende da palpação adequada. Por exemplo, em pacientes obesos ou com musculatura cervical muito desenvolvida, alguns serviços usam ultrassom para guiar a aplicação. Nessa situação, a chance de injeção em local errado cai significativamente.
5 indicações principais
O bloqueio occipital tem indicações bem estabelecidas pela literatura. Cinco se destacam pela qualidade de evidência e pela frequência com que aparecem na prática.
1. Enxaqueca crônica refratária
São pacientes com mais de 15 dias de cefaleia por mês que não responderam a dois ou mais preventivos orais. RCT de Chowdhury e colaboradores em 2022 mostrou que combinar o bloqueio com topiramato reduziu de 9 a 10 dias de enxaqueca por mês, contra 7 dias do topiramato isolado[1]. Portanto, é a melhor evidência atual para esse cenário. Vale também ler o post sobre enxaqueca crônica.
2. Cefaleia em salvas (cluster headache)
Provavelmente a pior dor que um humano pode sentir. Vem em séries de semanas, com várias crises por dia. Revisão sistemática de Gordon e colaboradores em 2023 reuniu estudos mostrando resposta de 47,8% a 100% dos pacientes ao bloqueio occipital, dependendo do subtipo[2]. Além disso, o RCT recente ANODYNE (2024) confirmou redução de 11,1 ataques por semana com o bloqueio contra 7,7 no placebo[3].
3. Neuralgia occipital
Indicação clássica. Quando a dor nasce do próprio trajeto do nervo (queimação, choques, sensibilidade ao toque na nuca), o procedimento funciona como diagnóstico e terapêutico ao mesmo tempo. Resposta positiva confirma o diagnóstico e alivia.
4. Cefaleia cervicogênica
Dor que vem do pescoço e se projeta pra cabeça. O bloqueio occipital confirma a origem cervical e, simultaneamente, alivia. Por isso é uma das indicações com melhor relação custo-benefício clínico.
5. Cefaleia pós-punção dural
Dor intensa após raquianestesia ou punção lombar mal sucedida. Nesse cenário, o procedimento aparece como alternativa ao blood patch em casos selecionados, especialmente em paciente que não tolera o procedimento epidural.
Em contrapartida, indicações com menor evidência incluem enxaqueca episódica leve responsiva a triptano e cefaleia tensional pura. Nesses cenários o bloqueio não é primeira escolha. Para entender outros tipos, vale ler também os posts sobre enxaqueca com aura e cefaleia tensional.
Como o procedimento é feito
O procedimento segue um protocolo simples. Primeiramente, o paciente fica sentado ou deitado, com a cabeça inclinada pra frente. Em seguida, o médico palpa os pontos de referência: a protuberância occipital externa e a artéria occipital. Depois, faz a antissepsia da pele.
Em seguida, injeta com agulha fina (25 ou 27G) uma mistura de anestésico local (lidocaína 1% ou bupivacaína 0,25%) com corticoide (dexametasona 4 mg ou metilprednisolona 40 mg). A injeção é subcutânea, no trajeto do nervo, e quase sempre bilateral. Além disso, antes de cada injeção o médico aspira a seringa para garantir que a agulha não está em vaso sanguíneo.
O tempo total é de 5 a 10 minutos por sessão. Não há sedação. Tampouco há necessidade de jejum prévio. Em alguns casos, o paciente pode sentir uma dormência ou peso no couro cabeludo por algumas horas. Esse efeito é esperado e passa sozinho.
Em geral, fazemos uma a três sessões iniciais com intervalo de quatro semanas. Geralmente, quem responde bem à primeira costuma se beneficiar da série completa. Por outro lado, quem não responde a duas sessões bem feitas, raramente responde à terceira. Nesse caso, é hora de reconsiderar a abordagem terapêutica como um todo.
Evidência científica do bloqueio occipital
A evidência do bloqueio occipital é moderada, com sinal positivo consistente em condições refratárias. Quatro estudos sustentam o uso atual.
- Inan e colaboradores (2019): revisão narrativa na Cephalalgia consolidando técnicas, drogas e frequência em enxaqueca crônica[4]
- Chowdhury (2022): RCT mostrando combinação com topiramato superior a topiramato isolado em enxaqueca crônica
- Gordon (2023): revisão sistemática confirmando uso em cefaleia em salvas com taxa de resposta entre 48% e 100%
- Koonalintip e colaboradores (2025): revisão séria colocando o bloqueio combinado com prevenção oral entre as estratégias mais eficazes para cefaleia por abuso medicamentoso, com redução de 10,6 dias por mês[5]
O ponto importante é o seguinte. A literatura mostra benefício moderado, não milagroso. Por exemplo, pacientes que esperam zero crise se frustram. Em contrapartida, pacientes que aceitam metade do que era costumam colher muito mais. Por isso, a expectativa correta é redução de 30 a 50% nos dias de cefaleia por mês, mantida por algumas semanas após cada aplicação.
Além disso, é importante destacar que a evidência específica em cefaleia em salvas é particularmente robusta. Nesse subtipo, o bloqueio pode interromper o ciclo de crises em poucos dias, atuando como terapia de transição enquanto preventivos orais (verapamil, lítio) atingem dose terapêutica plena.
Duração do efeito do bloqueio occipital
O efeito do bloqueio occipital dura de 4 a 12 semanas por aplicação, em média. Variações individuais existem. Por exemplo, alguns pacientes mantêm benefício por meses, outros por semanas.
Por outro lado, quem responde bem pode repetir a cada 3 meses em manutenção. No entanto, o corticoide tem limite prático de 4 a 6 aplicações por ano, para evitar efeitos sistêmicos como ganho de peso, alteração glicêmica ou redução da imunidade. Por isso, a frequência de aplicação é planejada com cuidado.
Geralmente, a combinação com preventivo oral é frequente. O bloqueio occipital não substitui topiramato, amitriptilina ou anti-CGRP. Em vez disso, soma com eles. A ideia é cobrir o paciente em frentes complementares, atacando a dor de cabeça em vias diferentes simultaneamente.
Vale também observar que a resposta tende a ser mais duradoura em pacientes que mantêm hábitos de saúde adequados: sono regular, hidratação, controle de fatores desencadeantes da cefaleia. Por outro lado, pacientes que negligenciam esses fatores tendem a ter recidiva mais precoce.
Segurança do bloqueio occipital
O bloqueio occipital tem perfil de segurança favorável. Os efeitos adversos mais comuns são leves e passageiros. Entre eles:
- Hematoma no ponto de injeção
- Reação vasovagal (queda de pressão, mal-estar passageiro)
- Dor local por algumas horas
- Dormência transitória do couro cabeludo
- Pequena queda capilar localizada (rara, geralmente reversível)
Riscos raros, porém importantes:
- Injeção intravascular acidental (por isso o médico aspira sempre antes de injetar)
- Infecção local (muito rara com técnica adequada)
- Reação alérgica ao anestésico ou ao corticoide
- Atrofia subcutânea por uso repetido de corticoide
Contraindicações incluem infecção ativa no ponto de aplicação, alergia conhecida aos fármacos, anticoagulação plena que não pode ser ajustada e gestação (discutir caso a caso). Para entender melhor outros bloqueios usados em medicina da dor, vale ler também o post sobre bloqueio de dor.
Combinação do bloqueio occipital com outros tratamentos
O bloqueio occipital raramente atua isoladamente em quadros crônicos refratários. Geralmente faz parte de um plano multimodal que inclui medicação preventiva oral, abordagem da higiene do sono, manejo de gatilhos alimentares e, em alguns casos, tratamento psicológico.
Combinações frequentes incluem:
- Bloqueio occipital + topiramato: combinação com melhor evidência em enxaqueca crônica, conforme RCT de Chowdhury 2022
- Bloqueio occipital + anti-CGRP: para pacientes refratários a múltiplas opções, geralmente em centros especializados. Vale ler o post sobre Botox e anti-CGRP
- Bloqueio occipital + bloqueio esfenopalatino: combinação útil em cefaleia em salvas, atuando em dois territórios simultaneamente
- Bloqueio occipital + radiofrequência das articulações da coluna cervical: indicado quando há componente cervicogênico marcante
Em situações que exigem efeito mais duradouro, a radiofrequência do nervo occipital pode ser considerada. Trata-se de procedimento mais elaborado, com efeito de 6 a 12 meses, indicado em casos selecionados.
Quando essa abordagem não é indicada
O bloqueio occipital não é primeira linha pra todo tipo de cefaleia. Cinco situações em que a indicação não se sustenta:
- Enxaqueca episódica leve que responde bem a triptano
- Cefaleia tensional pura sem componente cervical
- Paciente que ainda não fez preventivo oral bem ajustado
- Cefaleia por abuso medicamentoso sem desintoxicação simultânea
- Diagnóstico de cefaleia mal definido (primeiro investigar, depois tratar)
Em primeiro lugar, pacientes com dúvida diagnóstica devem ser investigados antes. No entanto, mesmo nessas situações, o procedimento pode ser usado como teste diagnóstico em alguns cenários específicos. Por exemplo, em suspeita de neuralgia occipital pura, a resposta ao bloqueio funciona como confirmação clínica.
Em casos de neuralgia trigeminal associada, vale ler o post sobre neuralgia do trigêmeo. Quando o quadro envolve enxaqueca com aura, vale entender melhor essa apresentação específica antes de indicar bloqueio do nervo occipital ou outro procedimento intervencionista.
Como funciona no consultório
Na prática diária, o atendimento começa com avaliação clínica detalhada. Anamnese completa sobre a cefaleia: tipo, frequência, fatores desencadeantes, tratamentos prévios, resposta a cada um deles. Em seguida, exame físico neurológico e palpação cervical e occipital para identificar pontos de gatilho.
Quando há indicação para o procedimento, agendamos a primeira sessão. O paciente recebe orientação por escrito sobre o que esperar, possíveis efeitos colaterais e como reportar resposta. Geralmente sugerimos diário de cefaleia simples (anotar dias com dor e intensidade), o que ajuda muito a avaliar resposta objetivamente.
Em seguida, a consulta de retorno acontece após 4 semanas, para reavaliar resposta e decidir continuidade. Assim, pacientes com boa resposta seguem com nova aplicação. Já pacientes sem resposta passam por reavaliação completa, considerando outras opções terapêuticas.
Para quem busca avaliação especializada, vale procurar um médico especialista em dor com formação específica em procedimentos para cefaleia. A diferença entre quem domina a técnica e quem aplica eventualmente é grande, especialmente no manejo dos casos refratários.
Referências científicas
- Chowdhury D, Tomar A, Deorari V, Duggal A, Krishnan A, Koul A. Greater occipital nerve blockade for the preventive treatment of chronic migraine: A randomized double-blind placebo-controlled study. Cephalalgia. 2022;42(9):859-871. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35259978/
- Gordon A, Roe T, Kularatne M, McKinnon C, Matharu M. Effectiveness and safety profile of greater occipital nerve blockade in cluster headache: a systematic review. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2024;95(1):73-85. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36948579/
- Chowdhury D, Datta D, Mundra A, et al. Efficacy and safety of greater occipital nerve blockade with methylprednisolone and lignocaine in episodic cluster headache (ANODYNE trial). Cephalalgia. 2024;44(10). Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39415681/
- Inan LE, Inan N, Karadas O, et al. Greater occipital nerve blockade for the treatment of chronic migraine. Cephalalgia. 2019;39(7):908-920. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30612462/
- Koonalintip P, Srikajon J, Phuenpathom W, et al. A network meta-analysis comparing the efficacy of different strategies on medication-overuse headache. J Headache Pain. 2025;26(1):43. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40011869/
- Tolba R, Weiss AL, Denis DJ. Sphenopalatine Ganglion Block and Radiofrequency Ablation: Technical Notes and Efficacy. Ochsner J. 2019;19(1):32-37. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30983899/
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Perguntas frequentes sobre bloqueio do nervo occipital
O bloqueio do nervo occipital cura a enxaqueca?
Não. Não existe cura definitiva da enxaqueca. Esse procedimento reduz frequência e intensidade das crises em pacientes com enxaqueca crônica refratária. Funciona melhor combinado com preventivo oral, não como substituto.
Quantas sessões vou precisar?
Padrão inicial é 1 a 3 sessões com intervalo de 4 semanas. Quem responde bem repete a cada 3 meses em manutenção. O limite prático de corticoide é 4 a 6 aplicações por ano.
O procedimento dói?
Dói como qualquer aplicação intramuscular: bem pouco e por poucos segundos. A agulha é fina (25 ou 27G) e a injeção é subcutânea. Não exige sedação.
Posso dirigir após o bloqueio?
Em geral sim. Não usamos sedação. Em casos com efeito vasovagal leve, vale esperar uma hora antes de dirigir. O médico orienta individualmente após a sessão.
Plano de saúde cobre?
Tem código próprio na tabela ANS. Cobertura é geralmente liberada quando há indicação médica formal. Pode variar conforme operadora e tipo de contrato. Vale checar antes de agendar.
Qual a diferença entre o bloqueio do nervo occipital e Botox para enxaqueca?
São técnicas diferentes. Botox usa toxina botulínica em 31 a 39 pontos, a cada 12 semanas. O bloqueio occipital usa anestésico mais corticoide só nos trajetos dos nervos occipitais. Mecanismos distintos. Podem ser combinadas em alguns casos.
Se a primeira aplicação não funcionar, vale tentar de novo?
Vale tentar uma segunda sessão ajustando técnica e dose. Se duas aplicações bem feitas não trouxeram melhora, é hora de reconsiderar a abordagem (Botox, anti-CGRP, neuromodulação) em vez de insistir no bloqueio.
Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.
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