“Enxaqueca não é frescura. É uma doença neurológica real, e tem tratamento.”
Dr. Ney LealTable of Contents
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Se você tem dor de cabeça que te derruba, daquelas que te obriga a apagar a luz, deitar no escuro e cancelar o dia, provavelmente não é uma dor de cabeça comum. Pode ser enxaqueca. A enxaqueca afeta cerca de 15% da população mundial e está entre as principais causas de incapacidade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde[1]. E, ainda assim, muita gente convive com ela por anos sem diagnóstico certo nem tratamento adequado.
Neste artigo, vou te explicar o que é enxaqueca, os tipos, como reconhecer uma crise, por que ela acontece e quais tratamentos realmente funcionam.
O que é enxaqueca?
Enxaqueca é uma doença neurológica. Tecnicamente, é uma cefaleia primária de origem neurovascular, o que significa que ela nasce de uma interação entre o cérebro e os vasos sanguíneos que o envolvem[2]. Não é “dor de cabeça forte”. Não é frescura. Não é falta de força de vontade. É uma condição crônica, como asma ou hipertensão, que tem diagnóstico, tratamento e precisa ser levada a sério.
Pense em um alarme de incêndio com o sensor ultra sensível. Um cigarro aceso a três quartos de distância já faz ele disparar. O cérebro de quem tem enxaqueca funciona assim: estímulos que outras pessoas nem percebem, como uma mudança no tempo, um cheiro de perfume no elevador ou uma noite mal dormida, bastam para disparar uma crise.
A diferença para a “dor de cabeça comum” (cefaleia tensional) está em vários detalhes: a enxaqueca costuma ser latejante, pega só um lado da cabeça, vem acompanhada de enjoo, de incômodo com luz e som, e piora quando a pessoa se movimenta. Vou entrar em cada um desses pontos ao longo do texto.
Quem tem enxaqueca?
Os números são impressionantes:
- Cerca de 15% da população adulta mundial tem enxaqueca[1]. No Brasil, são mais de 30 milhões de pessoas.
- É 3 vezes mais comum em mulheres do que em homens, principalmente por causa das oscilações hormonais.
- O pico de incidência acontece entre os 25 e 45 anos, justamente na fase de maior produtividade profissional e vida familiar ativa.
- Entre as 10 maiores causas de incapacidade no mundo, a enxaqueca aparece todos os anos, segundo a OMS.
- O componente genético é forte: cerca de 60 a 70% das pessoas com enxaqueca têm algum familiar próximo que também sofre do problema.
Se a sua mãe, o seu pai ou a sua avó tinham “dor de cabeça de ficar no escuro”, provavelmente era enxaqueca. E provavelmente você herdou um cérebro com o mesmo alarme sensível.
As 4 fases de uma crise de enxaqueca
Muita gente acha que enxaqueca é só “a dor”. Na verdade, a crise tem até 4 fases, e reconhecer as primeiras pode mudar completamente o tratamento[2]. Quanto mais cedo a pessoa percebe que a crise está chegando, mais chance de abortar antes que ela vire um dia perdido.
Pródromo
Essa é a fase silenciosa, que pode começar de algumas horas até 2 dias antes da dor. Os sinais mais comuns são:
- Bocejos repetitivos sem motivo
- Compulsão por doce ou por algum alimento específico
- Irritabilidade, alteração de humor
- Rigidez ou tensão no pescoço
- Vontade frequente de urinar
- Sensibilidade à luz começando a aparecer
- Sensação de cansaço ou, ao contrário, de energia exagerada
Quem presta atenção aprende a reconhecer o próprio pródromo. E quem reconhece consegue agir antes.
Aura
Nem todo mundo tem. Cerca de 25% das pessoas com enxaqueca têm aura, e ela costuma durar entre 20 e 60 minutos antes da dor começar. Os sintomas mais clássicos são visuais: pontos brilhantes, linhas em zigue-zague, perda de parte do campo de visão. Mas também podem ser sensitivos (formigamento em um lado do rosto ou do braço) ou de fala (dificuldade de encontrar palavras).
Se você tem aura, vale conhecer os detalhes da enxaqueca com aura em um post específico sobre o tema.
Fase de dor
Esta é a fase que todo mundo reconhece. Sem tratamento, pode durar de 4 a 72 horas. É a dor latejante, geralmente de um lado, que piora com movimento e se intensifica em ambientes iluminados ou barulhentos.
Pós-dromo
É a famosa “ressaca da enxaqueca”. Depois que a dor vai embora, muita gente ainda fica 1 ou 2 dias com fadiga, lentidão de raciocínio, humor alterado, sensação de estar “amassado”. É o cérebro se recuperando da tempestade.
Sintomas da enxaqueca

Nem toda dor de cabeça é enxaqueca. Para a gente pensar em enxaqueca, alguns sintomas são característicos:
- Dor pulsátil: lateja junto com o coração, como se tivesse um batimento dentro da cabeça.
- Localização unilateral: geralmente pega um lado da cabeça, atrás do olho, na têmpora, na região da nuca. Pode trocar de lado entre uma crise e outra.
- Intensidade moderada a forte: incomoda de verdade, atrapalha o trabalho, as tarefas de casa, o cuidado com os filhos.
- Fotofobia: sensibilidade à luz. A pessoa quer apagar a luz, fechar a cortina, tirar o celular da cara.
- Fonofobia: sensibilidade ao som. Barulho de televisão, conversa, criança brincando vira tortura.
- Osmofobia: sensibilidade a cheiros. Perfume, comida no fogão, cheiro de cigarro. É um sinal bem clássico e, quando presente, aumenta muito a chance de ser enxaqueca mesmo.
- Náusea e vômito: são companheiros frequentes das crises.
- Piora com movimento: subir escada, abaixar para pegar algo, correr para atender a porta, tudo intensifica a dor.
- Duração: entre 4 e 72 horas sem tratamento adequado.
Se você identifica vários desses sintomas na sua dor de cabeça, provavelmente está lidando com enxaqueca.
Tipos de enxaqueca

A enxaqueca não é uma doença única. Existem vários subtipos, e conhecer o seu ajuda a escolher o melhor tratamento.
Enxaqueca sem aura
É a forma mais comum, respondendo por cerca de 75% dos casos. A dor aparece sem aviso visual prévio. Tem todas as características que descrevi acima: pulsátil, unilateral, com náusea, fotofobia e fonofobia.
Enxaqueca com aura
Corresponde a cerca de 25% dos casos. Antes da dor, a pessoa tem sintomas neurológicos transitórios, geralmente visuais, que duram entre 5 e 60 minutos. Leia o post completo sobre enxaqueca com aura.
Enxaqueca crônica
Quando a pessoa tem dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, por pelo menos 3 meses seguidos, e pelo menos 8 desses dias têm características de enxaqueca, a gente chama de enxaqueca crônica. É uma forma mais grave, que exige abordagem específica, incluindo tratamentos preventivos como toxina botulínica e anticorpos anti CGRP[3]. Para saber mais, leia o post completo sobre enxaqueca crônica.
Enxaqueca menstrual
Muitas mulheres notam que as crises acontecem especificamente em torno da menstruação, entre 2 dias antes e 3 dias depois do início do fluxo. A queda brusca de estrogênio é o gatilho.
Enxaqueca vestibular
Aqui o sintoma dominante é a vertigem. A pessoa pode ter crises de tontura intensa, com ou sem dor de cabeça, e muitas vezes passa anos indo ao otorrino antes de descobrir que o problema é neurológico.
Enxaqueca hemiplégica
É uma forma rara e de origem genética, em que a crise vem acompanhada de fraqueza em um lado do corpo, como se fosse um AVC. Precisa de avaliação cuidadosa porque os sintomas se confundem com outras condições sérias.
Outras formas
Existem ainda a enxaqueca retiniana (com perda de visão em um olho), a do tronco encefálico (com vertigem, zumbido, alteração de fala) e a oftalmoplégica (com paralisia de nervos dos movimentos oculares). São raras e precisam de investigação especializada.
Por que a enxaqueca acontece? Causas e gatilhos

A enxaqueca é, no fundo, uma disfunção de regulação do sistema nervoso. O cérebro de quem tem enxaqueca é mais sensível a variações, e responde a elas liberando substâncias inflamatórias em torno dos vasos sanguíneos da cabeça. Uma dessas substâncias, o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), é um dos principais atores dessa tempestade[2]. Sabendo disso, a medicina criou medicamentos que bloqueiam o CGRP, e isso revolucionou o tratamento nos últimos anos[4].
Agora, o componente genético é inegável. Se os seus pais tinham enxaqueca, a chance de você ter é muito maior. O que a genética te dá não é a crise pronta, é o “terreno fértil”. Os gatilhos, esses sim, ativam a crise num cérebro já predisposto.
Os gatilhos mais comuns são:
- Hormonais: menstruação, uso de anticoncepcional, menopausa.
- Alimentares: queijos envelhecidos, chocolate, vinho tinto, glutamato monossódico, adoçantes artificiais, jejum prolongado.
- Sono: dormir pouco ou dormir demais. Curiosamente, excesso de sono no fim de semana é um gatilho clássico.
- Estresse: tanto o estresse agudo quanto, curiosamente, o alívio depois dele. A famosa “enxaqueca de sábado de manhã” depois de uma semana puxada.
- Clima: mudanças bruscas de temperatura, queda da pressão atmosférica, umidade alta.
- Estímulos sensoriais: luz forte, luz piscante, cheiros intensos, ruído ambiente.
- Tela e trabalho prolongado: horas seguidas no computador sem pausa, leitura prolongada, postura fixa.
Cada pessoa tem um perfil próprio. Uma paciente minha só tem crise quando come chocolate e bebe vinho no mesmo dia. Outro, só quando dorme menos de 6 horas duas noites seguidas. Descobrir o seu perfil é parte do tratamento.
Como é feito o diagnóstico?
Boa notícia: o diagnóstico da enxaqueca é clínico. Ou seja, é feito pela conversa do médico com o paciente e pelo exame neurológico, seguindo os critérios da ICHD-3 (Classificação Internacional das Cefaleias, 3ª edição)[5]. Não precisa de ressonância magnética nem de tomografia na maioria dos casos.
Exames de imagem são indicados quando aparecem sinais de alerta ou quando o padrão da dor muda de forma importante. Fazer ressonância em toda dor de cabeça é caro, gera ansiedade desnecessária e muitas vezes encontra “achados incidentais” que não explicam a dor.
Uma ferramenta simples e poderosa é o diário de cefaleia. Anote durante pelo menos 2 meses: quando começou, quanto durou, a intensidade (de 0 a 10), os sintomas associados, o que tomou, o que comeu e bebeu, como estava o sono, o estresse e o ciclo menstrual. Com esse diário na mão, o médico consegue identificar padrões e gatilhos que nenhum exame revelaria.
Tratamento da enxaqueca: o que realmente funciona
O tratamento da enxaqueca tem dois grandes pilares: tratar a crise quando ela acontece e prevenir novas crises. Os dois caminhos caminham juntos.
Tratamento da crise (abortivo)
O objetivo aqui é interromper a crise o mais rápido possível, antes que ela se instale completamente. Quanto mais cedo a medicação é tomada, melhor o resultado[6].
- Anti inflamatórios (AINEs) como ibuprofeno e naproxeno funcionam bem em crises leves a moderadas.
- Triptanos (sumatriptano, rizatriptano, zolmitriptano) são a linha principal para crises moderadas a graves. Agem especificamente na cascata neurovascular da enxaqueca.
- Gepantes (ubrogepante, rimegepante) são uma classe nova, que bloqueia diretamente o CGRP. Ótima opção para quem não tolera triptanos.
- Ditans (lasmiditan) é outra classe nova, alternativa em casos selecionados.
- Antieméticos (como metoclopramida) ajudam a controlar a náusea e ainda potencializam o efeito dos outros remédios.
Atenção para o erro mais comum: usar analgésico todo dia ou quase todo dia. Isso é o caminho direto para a cefaleia por abuso de medicação, em que o próprio remédio vira causa da dor. A regra de ouro: analgésicos e triptanos não devem ser usados em mais de 10 dias por mês.
Tratamento preventivo
Quando indicar? Quando a pessoa tem 4 ou mais crises por mês, quando as crises atrapalham muito a vida mesmo sendo menos frequentes, ou quando os remédios da crise não funcionam direito.
Opções clássicas: betabloqueadores (propranolol), topiramato, amitriptilina, flunarizina e candesartana.
Opções modernas: anticorpos monoclonais anti CGRP (erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe, eptinezumabe), aplicados por injeção mensal ou trimestral, com alta eficácia e poucos efeitos colaterais[4]. E a toxina botulínica, aplicada em pontos específicos a cada 3 meses, indicação específica para enxaqueca crônica.
Tratamento não farmacológico (igualmente importante)
- Higiene do sono: dormir em horários regulares, incluindo fim de semana. Leia o post sobre dor crônica e sono.
- Exercício aeróbico regular: caminhar, pedalar, nadar, 3 a 5 vezes por semana. Leia o post sobre exercício físico e dor crônica.
- Mindfulness, TCC e biofeedback: técnicas que ensinam o sistema nervoso a responder melhor ao estresse.
- Neuromodulação não invasiva: aparelhos como gammaCore e Cefaly estimulam nervos específicos sem agulha, sem medicação.
- Identificação e manejo dos gatilhos pessoais: com o diário na mão, a pessoa vai ajustando a rotina.
Enxaqueca e outras dores de cabeça: como diferenciar

Uma das perguntas mais frequentes que eu escuto é: “Doutor, como eu sei se é enxaqueca mesmo ou é outra coisa?”. A tabela abaixo resume as diferenças entre as três dores de cabeça primárias mais comuns:
| Característica | Enxaqueca | Cefaleia tensional | Cefaleia em salvas |
|---|---|---|---|
| Localização | Um lado (geralmente) | Dos dois lados, em “aperto” | Atrás de um olho |
| Qualidade | Pulsátil, latejante | Pressão, aperto | Em punhalada, muito intensa |
| Duração | 4 a 72 horas | 30 min a 7 dias | 15 min a 3 horas |
| Sintomas associados | Náusea, fotofobia, fonofobia | Nenhum ou muito leves | Lacrimejar, congestão nasal do lado da dor |
| Piora com movimento | Sim | Não | Pessoa fica agitada |
A principal confusão acontece com a cefaleia tensional, porque é muito mais comum no dia a dia. A diferença está justamente na qualidade da dor e nos sintomas acompanhantes: cefaleia tensional é uma pressão dos dois lados, sem náusea, sem fotofobia importante. Enxaqueca é aquela dor que te derruba.
Bandeiras vermelhas: quando procurar médico com urgência
A grande maioria das dores de cabeça é benigna, inclusive a enxaqueca. Mas existem sinais que exigem avaliação médica imediata, porque podem indicar algo mais grave:
- Primeira dor de cabeça muito intensa depois dos 50 anos
- “A pior dor de cabeça da sua vida”, de início súbito em segundos (dor em trovoada)
- Dor de cabeça acompanhada de déficit neurológico novo: fraqueza, alteração de fala, perda de visão, confusão mental
- Mudança importante do padrão em quem já tinha enxaqueca
- Dor de cabeça com febre e rigidez de nuca
- Dor de cabeça que piora progressivamente ao longo de semanas
- Dor desencadeada por esforço, tosse ou relação sexual
Se você tem algum desses sinais, procure atendimento hoje, não deixe para depois. Na dúvida, sempre procure um médico especialista em dor para uma avaliação cuidadosa.
Conclusão
A enxaqueca não é frescura, não é fraqueza e não é “só uma dor de cabeça”. É uma doença neurológica real, com mecanismos bem estudados, com critérios diagnósticos claros e, o mais importante, com tratamentos modernos que funcionam. Ninguém precisa aceitar viver com uma dor que derruba o dia, o trabalho e os planos.
Dor crônica tem tratamento. Informação é o primeiro passo.
Referências científicas
- GBD 2016 Headache Collaborators. Global, regional, and national burden of migraine and tension-type headache, 1990-2016: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. Lancet Neurol. 2018;17(11):954-976. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30353868/
- Ashina M. Migraine. N Engl J Med. 2020;383(19):1866-1876. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33211930/
- Ornello R, Caponnetto V, Ahmed F, et al. Evidence-based guidelines for the pharmacological treatment of migraine, summary version. Cephalalgia. 2025;45(4):3331024251321500. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40277321/
- Charles A, Pozo-Rosich P. Targeting calcitonin gene-related peptide: a new era in migraine therapy. Lancet. 2019;394(10210):1765-1774. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31668411/
- Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018;38(1):1-211. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29368949/
- Ailani J, Burch RC, Robbins MS; Board of Directors of the American Headache Society. The American Headache Society Consensus Statement: Update on integrating new migraine treatments into clinical practice. Headache. 2021;61(7):1021-1039. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34160823/
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Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal , CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.