“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”
Dr. Ney LealTable of Contents
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Pontos brilhantes na visão, linhas em zigue-zague, formigamento no rosto ou na mão, seguidos de uma dor de cabeça intensa. Se você já viveu isso, provavelmente experimentou uma enxaqueca com aura. É uma experiência assustadora, especialmente na primeira vez, muitas pessoas chegam ao pronto-socorro achando que estão tendo um AVC[1]. Você pode entender melhor lendo o nosso guia sobre dor crônica.
Neste artigo, vou te explicar o que é aura, por que ela acontece, como diferenciar de algo mais grave e quando se preocupar de verdade.
📖 Leitura essencial: a enxaqueca com aura é um dos subtipos da enxaqueca. Se você quer entender o quadro completo, fases da crise, outros tipos e tratamento geral, comece pelo guia Enxaqueca: o que é, tipos, sintomas e tratamento.
O que é a aura na enxaqueca com aura

A aura é um conjunto de sintomas neurológicos temporários que antecedem ou acompanham a dor de cabeça da enxaqueca. Ela acontece por causa de uma onda elétrica que se espalha lentamente pelo córtex cerebral, chamada de depressão alastrante cortical[2].
Imagine uma pedra caindo num lago. A onda se espalha em círculos a partir do ponto de impacto. No cérebro, essa onda elétrica se espalha da mesma forma e, conforme passa por cada região, gera sintomas temporários naquela área. Estudos de imagem mostram inclusive uma resposta inflamatória nas meninges sobre o córtex occipital de pacientes com enxaqueca com aura visual, sugerindo um elo entre essa onda elétrica e a dor que vem em seguida[2].
Tipos de aura

Aura visual (mais comum, cerca de 90% dos casos): pontos brilhantes (cintilações), linhas em zigue-zague, manchas escuras ou “buracos” no campo visual. Geralmente começa no centro da visão e se expande para a periferia ao longo de 5 a 20 minutos.
Aura sensitiva: formigamento que começa na mão e sobe pelo braço até o rosto, ou formigamento nos lábios e língua. Progride lentamente (em minutos, não em segundos, isso é importante para diferenciar de AVC).
Aura de linguagem: dificuldade para encontrar palavras, falar de forma confusa ou entender o que os outros dizem. Temporária e reversível.
A aura dura entre 5 e 60 minutos e é completamente reversível, não deixa sequelas. A dor de cabeça costuma começar até 60 minutos após o fim da aura.
Enxaqueca com aura x AVC: como diferenciar
Esta é a dúvida que mais preocupa. As diferenças principais são[1]:
Velocidade: a aura da enxaqueca se instala gradualmente, ao longo de minutos. Os sintomas do AVC aparecem de forma súbita, em segundos.
Progressão: a aura “caminha”, começa num ponto e se espalha lentamente. O AVC provoca um déficit fixo e imediato.
Duração: a aura resolve em até 60 minutos. Os sintomas do AVC não melhoram sozinhos.
Importante: na dúvida, sempre procure atendimento médico urgente. É melhor ir ao pronto-socorro e descobrir que era enxaqueca do que ignorar um AVC.
Uma dúvida comum é diferenciar os sintomas visuais da aura de uma simples tontura ou vista embaçada causada por tensão ocular, sintomas que podem acompanhar um quadro de cefaleia tensional. A aura verdadeira tem características neurológicas específicas.
Quando se preocupar de verdade

Procure atendimento urgente se:
- A aura dura mais de 60 minutos
- Os sintomas apareceram de forma súbita (segundos)
- É a primeira vez que acontece e você tem mais de 40 anos
- Veio acompanhada de fraqueza intensa em um lado do corpo
- Há confusão mental, dificuldade para falar ou perda de consciência
- A dor de cabeça é a pior que você já sentiu na vida
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Tratamento
O tratamento da enxaqueca com aura é semelhante ao da enxaqueca sem aura, com uma diferença importante: mulheres que têm enxaqueca com aura devem evitar anticoncepcionais combinados com estrogênio, pois a combinação aumenta o risco de AVC isquêmico. O CDC americano e diretrizes internacionais recomendam evitar contraceptivos hormonais combinados nessas pacientes[3]. Quando o uso é considerado, formulações com 30 µg ou menos de etinilestradiol estão associadas a menor risco[4]. Essa orientação é fundamental e deve ser discutida com o ginecologista.
O tratamento preventivo com medicamentos orais, anticorpos anti-CGRP ou toxina botulínica pode reduzir tanto a frequência das crises quanto a ocorrência da aura[5].
Ter enxaqueca com aura está associado a maior risco de evolução para enxaqueca crônica, um quadro em que a dor ocorre em 15 ou mais dias por mês. Saiba mais sobre enxaqueca crônica.
Como a enxaqueca com aura aparece
A enxaqueca com aura começa com uma fase estranha que antecede ou acompanha a dor de cabeça, e muita gente descreve como se o corpo avisasse que uma crise está a caminho. Os sintomas mais comuns da enxaqueca com aura são visuais: pontinhos brilhantes, linhas em zigue-zague, áreas escuras no campo de visão, como se um pedaço da imagem tivesse sido apagado. Em geral, dura entre 5 e 60 minutos e depois some, dando lugar à dor.
Alguns pacientes têm aura sensitiva, com formigamento que começa na ponta dos dedos, sobe pelo braço e chega no rosto. Outros percebem dificuldade momentânea para encontrar palavras, como se a língua ficasse emperrada. Esses episódios assustam muito na primeira vez, porque lembram sintomas de um derrame. Por isso, toda primeira aura merece avaliação médica.
Caso hipotético: a primeira aura da paciente
J.L., feminina, 29 anos, estava no trabalho quando começou a ver um ponto brilhante no canto do olho esquerdo. Em poucos minutos, o ponto virou uma mancha em zigue-zague que crescia e tomava boa parte do campo de visão. Ela ficou em pânico, achou que estava tendo um AVC e foi ao pronto-socorro. Lá, os exames vieram normais. Meia hora depois, a mancha sumiu e começou uma dor latejante forte de um lado só da cabeça.
Era a primeira crise de enxaqueca com aura dela. A mãe e a tia também tinham o mesmo quadro desde jovens, só que ninguém nunca tinha dado nome. Com o diagnóstico correto, a paciente passou a reconhecer os sintomas, aprendeu o que fazer nos primeiros minutos da aura e começou um tratamento preventivo. Hoje, consegue encarar as crises sem o pavor daquela primeira vez.
Gatilhos mais comuns da enxaqueca com aura
Os gatilhos costumam ser os mesmos da enxaqueca sem aura, mas algumas situações são particularmente sensíveis para quem tem aura:
- Jejum prolongado e queda do açúcar no sangue.
- Noites mal dormidas ou, curiosamente, dormir demais nos fins de semana.
- Estresse intenso e, muitas vezes, o chamado estresse de alívio, aquele que bate quando a pressão finalmente afrouxa.
- Luzes piscantes, telas brilhantes, ambientes muito iluminados.
- Mudanças hormonais, principalmente no período perimenstrual.
- Vinho tinto, queijos envelhecidos e alimentos ricos em tiramina em pessoas sensíveis.
Enxaqueca com aura e risco cardiovascular
Essa é uma conversa que o especialista em dor precisa ter com carinho. Estudos mostram que pessoas com enxaqueca com aura, principalmente mulheres jovens, têm um risco levemente aumentado de eventos vasculares quando somados a outros fatores, como tabagismo e uso de anticoncepcional combinado com estrogênio. Isso não significa pânico, significa cuidado. Parar de fumar, controlar pressão, colesterol e discutir a melhor opção contraceptiva com o ginecologista são atitudes simples que reduzem o risco quase a zero.
O que fazer quando a aura começa
Quando os primeiros sintomas de aura aparecem, o ideal é agir rápido, antes da dor instalar. Algumas orientações práticas:
- Pare o que está fazendo, se possível. Dirigir ou operar máquinas nesse momento não é seguro.
- Procure um ambiente com pouca luz e silencioso.
- Beba água e, se estiver em jejum, coma algo leve.
- Se o seu médico já prescreveu medicação de crise, tome assim que a aura começa, não espere a dor chegar.
- Anote o episódio no diário da dor: horário, duração, sintomas. Isso vale ouro na próxima consulta.
Sinais de alerta na aura
Nem toda aura é benigna. Procure atendimento médico imediato se: a aura durar mais de 60 minutos, os sintomas forem sempre do mesmo lado e piorando, houver fraqueza de verdade em um braço ou perna, dificuldade importante para falar, perda de consciência ou se for a primeira vez que isso acontece. Pode não ser nada, mas é o tipo de situação em que preferimos investigar antes de assumir.
Mitos comuns sobre enxaqueca com aura
Alguns mitos atrapalham bastante o tratamento e merecem ser desmontados. O primeiro é acreditar que “enxaqueca com aura é só uma dor de cabeça chata”. Enxaqueca é uma doença neurológica reconhecida, e a enxaqueca com aura tem particularidades que precisam ser respeitadas. O segundo mito é achar que, porque os exames de sangue e a tomografia estão normais, o problema está na cabeça no sentido psicológico. Nada disso: a maioria dos pacientes com enxaqueca com aura tem exames completamente normais, justamente porque o problema é funcional, e não estrutural.
Outro mito é pensar que usar medicação de crise é vício. Tomar triptano ou analgésico específico na dose certa, nos dias certos, não causa dependência, e é parte importante do tratamento. O problema aparece quando se passa a tomar remédio todo dia, sem acompanhamento. Por fim, há o mito do “remédio natural” que cura: chás, cristais, terapias alternativas sem evidência. Alguns desses recursos podem ser coadjuvantes no bem-estar geral, mas não substituem o tratamento validado pela ciência. Conversar abertamente com o especialista sobre o que você usa é fundamental para evitar interações e frustrações.
O que dizer ao seu médico na consulta
Quando for conversar com um especialista em dor sobre enxaqueca com aura, leve três informações prontas: quantos dias de dor teve no último mês, quantos desses dias precisou tomar medicação, e uma descrição breve da aura (como começa, quanto dura, o que vem junto). Esses dados transformam a consulta e aceleram muito a construção do plano terapêutico. Um diário simples, feito por 30 dias, faz milagres na qualidade do atendimento.
Referências científicas
- Alstadhaug KB, Tronvik E, Aamodt AH. Transient ischemic attack or migraine with aura? Tidsskr Nor Laegeforen. 2023;143(15). Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37874053/
- Hadjikhani N, Albrecht DS, Mainero C, et al. Extra-axial inflammatory signal in parameninges in migraine with visual aura. Ann Neurol. 2020;87(6):939-949. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32239542/
- Paradise SL, Landis CA, Klein DA. Evidence-based contraception: common questions and answers. Am Fam Physician. 2022;106(3):251-259. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36126006/
- Batur P, Yao M, Bucklan J, et al. Use of combined hormonal contraception and stroke: a case-control study of the impact of migraine type and estrogen dose on ischemic stroke risk. Headache. 2023;63(6):813-821. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36752588/
- Ornello R, Caponnetto V, Ahmed F, et al. Evidence-based guidelines for the pharmacological treatment of migraine, summary version. Cephalalgia. 2025;45(4):3331024251321500. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40277321/
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Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal , CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.