“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”
Dr. Ney LealTable of Contents
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📖 Leitura recomendada: a hérnia de disco é uma das principais causas de dor nas costas — veja nosso guia completo com todas as causas e tratamentos.
Se você já ouviu falar em hérnia de disco, provavelmente associou com dor forte nas costas e medo de cirurgia. Mas a realidade é bem diferente do que a maioria imagina. A hérnia de disco é muito mais comum do que parece, e, na grande maioria dos casos, não precisa de cirurgia.
Neste artigo, vou te explicar o que é hérnia de disco de verdade, por que ela causa dor, quais são os sintomas, como é feito o diagnóstico e quais tratamentos funcionam segundo a ciência atual. Se você convive com esse problema, ou acabou de receber esse diagnóstico, este guia foi feito para você.
O que é hérnia de disco?

Entre cada par de vértebras da coluna existe um disco intervertebral, uma estrutura que funciona como uma almofada amortecedora. Esse disco tem duas partes: um anel fibroso (parte externa, mais resistente) e um núcleo pulposo (parte interna, gelatinosa).
A hérnia de disco acontece quando o anel fibroso se rompe e o núcleo gelatinoso escapa para fora, pressionando os nervos que passam ao lado. É como um hambúrguer: quando você aperta demais, o recheio escapa pela lateral. Quando esse “recheio” encosta num nervo, a dor aparece.
A região mais afetada é a coluna lombar (parte baixa das costas), responsável por cerca de 90% dos casos. Quando a hérnia lombar comprime os nervos, pode gerar uma dor lombar intensa que se confunde com outras causas. A hérnia também pode ocorrer na coluna cervical (pescoço) e, mais raramente, na torácica.
Por que a hérnia de disco acontece?
A principal causa é o desgaste natural dos discos com o passar dos anos. Com o tempo, os discos perdem água, elasticidade e resistência, como um pneu que vai ficando careca. Isso é absolutamente normal e acontece com todo mundo a partir dos 30 anos.
Existem fatores que aceleram esse processo:
Sobrecarga repetitiva: carregar peso de forma inadequada, trabalhos que exigem esforço físico intenso e movimentos repetitivos de flexão da coluna aumentam a pressão sobre os discos.
Sedentarismo: a musculatura que sustenta a coluna precisa estar forte. Quando você não se exercita, essa musculatura enfraquece e os discos suportam mais carga do que deveriam.
Obesidade: o peso extra aumenta a carga sobre os discos da coluna lombar, acelerando o desgaste.
Genética: sim, a tendência a desenvolver hérnia de disco tem componente hereditário. Se seus pais ou avós tiveram, seu risco é maior.
Tabagismo: o cigarro reduz a circulação sanguínea nos discos intervertebrais, prejudicando sua nutrição e acelerando a degeneração.
Sintomas da hérnia de disco
É importante saber que muitas hérnias não causam nenhum sintoma. Estudos de ressonância magnética mostram que até 40% das pessoas sem dor têm algum grau de hérnia de disco. Ter uma hérnia no exame não significa que ela é a culpada pela sua dor.
Quando a hérnia causa sintomas, os mais comuns são:
Dor que irradia para a perna: quando a hérnia comprime um nervo na região lombar, a dor pode descer pela perna, é a famosa dor ciática. A dor costuma ser em queimação, choque ou fisgada.
Dor lombar: uma dor nas costas localizada na região baixa pode estar presente, mas nem sempre. Muitas vezes a dor na perna é mais intensa que a dor nas costas.
Formigamento e dormência: a compressão do nervo pode causar alteração de sensibilidade na perna, panturrilha ou pé, dependendo de qual nervo está sendo comprimido.
Fraqueza muscular: em casos mais avançados, o paciente pode sentir dificuldade para levantar o pé, subir escadas ou ficar na ponta dos pés.
Na coluna cervical: a hérnia de disco cervical causa dor no pescoço que irradia para o braço, com formigamento e dormência na mão. O mecanismo é o mesmo, muda apenas a localização.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa com a história clínica e o exame físico. Um médico especialista em dor consegue suspeitar da hérnia de disco apenas com a conversa e os testes no consultório.
Ressonância magnética (RM): é o exame padrão-ouro. Mostra com detalhes o disco, a hérnia e sua relação com os nervos. Mas atenção: a ressonância mostra a anatomia, não a dor. O exame precisa ser interpretado junto com os sintomas.
Tomografia computadorizada: pode ser usada quando a ressonância não está disponível ou é contraindicada.
Eletroneuromiografia: avalia a função dos nervos e pode identificar qual raiz nervosa está comprometida.
Tratamento da hérnia de disco
A grande notícia que todo paciente precisa ouvir: a maioria das hérnias de disco melhora sem cirurgia. Estudos de alta qualidade publicados no New England Journal of Medicine mostram que até 90% dos pacientes melhoram com tratamento conservador. Além disso, pesquisas demonstram que muitas hérnias diminuem de tamanho ou são completamente reabsorvidas pelo organismo ao longo de meses.
Tratamento conservador
Medicamentos: anti-inflamatórios, analgésicos, relaxantes musculares e medicamentos para dor neuropática (como gabapentina e pregabalina) ajudam a controlar a dor enquanto o corpo se recupera.
Fisioterapia: exercícios de estabilização lombar, fortalecimento do core e alongamento são essenciais. A fisioterapia não “coloca o disco no lugar”, mas fortalece a musculatura ao redor, alivia a carga sobre o disco e ajuda o nervo a se recuperar.
Atividade física: após a fase aguda, manter-se ativo é fundamental. Caminhada, natação, pilates e musculação orientada por profissional são excelentes opções.
Procedimentos minimamente invasivos
Bloqueio epidural ou foraminal: uma injeção de corticoide e anestésico próximo ao nervo comprimido, guiada por raio-X ou ultrassom. Reduz a inflamação e pode trazer alívio significativo, funcionando como uma ponte para a reabilitação.
Radiofrequência pulsada: utiliza ondas de rádio para modular a transmissão de dor no nervo. É uma opção para casos que não respondem a bloqueios convencionais.
Cirurgia
A cirurgia é indicada em situações específicas:
• Perda de força progressiva na perna
• Síndrome da cauda equina (perda de controle de bexiga/intestino, emergência)
• Dor que não melhora após 6 a 12 semanas de tratamento adequado
• Dor incapacitante que impede a reabilitação
A microdiscectomia é a técnica mais utilizada, minimamente invasiva, com recuperação rápida. Mas lembre-se: cirurgia é o último recurso, não o primeiro. Quando o problema é o estreitamento do canal por onde passam os nervos, pode se tratar de estenose do canal lombar, uma condição diferente que merece avaliação específica.
5 mitos sobre hérnia de disco
1. “Hérnia de disco é para sempre.” Não. Pesquisas mostram que o próprio corpo pode reabsorver a hérnia ao longo de meses. Hérnias maiores, paradoxalmente, têm maior chance de serem reabsorvidas.
2. “Se tem hérnia no exame, precisa operar.” Falso. Muitas pessoas vivem normalmente com hérnias de disco sem nenhum sintoma. O tratamento é para a dor, não para a imagem do exame.
3. “Não posso mais fazer exercício.” Pelo contrário. O exercício é uma das melhores ferramentas para tratar e prevenir a hérnia de disco. O segredo é começar com orientação profissional.
4. “Hérnia de disco é coisa de idoso.” Não necessariamente. Hérnias de disco são comuns entre 30 e 50 anos, quando o disco ainda tem bastante núcleo gelatinoso que pode se deslocar.
5. “Se eu fizer repouso absoluto, melhora mais rápido.” Mito perigoso. O repouso prolongado enfraquece a musculatura e pode piorar o quadro. Repouso relativo nos primeiros dias e retorno gradual às atividades é o caminho.
Como prevenir a hérnia de disco
Nem toda hérnia pode ser prevenida, mas você pode reduzir muito o risco:
• Pratique exercícios regularmente, especialmente fortalecimento abdominal e lombar
• Mantenha um peso saudável
• Cuide da postura ao levantar objetos pesados (dobre os joelhos, não a coluna)
• Evite ficar sentado por longos períodos sem pausas
• Pare de fumar, o cigarro prejudica os discos diretamente
Quando procurar um especialista
Se a sua dor nas costas irradia para a perna, dura mais de 4 semanas, está piorando ou vem acompanhada de formigamento e fraqueza, procure um médico especialista em dor. O diagnóstico correto é o primeiro passo. E se você já tem o diagnóstico mas não está satisfeito com o tratamento, uma segunda opinião pode mudar tudo.
A hérnia de disco tem tratamento, e na maioria das vezes, esse tratamento não é cirurgia. Você não precisa viver com medo. Para entender mais sobre como a dor crônica funciona e como ela se relaciona com a hérnia de disco, leia nosso guia completo.
Perguntas Frequentes
Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal, CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.
Conhece alguém que convive com hérnia de disco? Compartilhe este artigo. Informação de qualidade pode mudar a forma como essa pessoa lida com a dor.
Referências
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