“A minha dor não me define, mas me ajuda a entender a sua.”
Dr. Ney LealTable of Contents
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Se você tem dor de cabeça mais de 15 dias por mês, com pelo menos 8 desses dias com características de enxaqueca, pode estar lidando com a enxaqueca crônica. Não é “apenas dor de cabeça”, é uma doença neurológica que afeta cerca de 2% da população mundial[1] e é uma das maiores causas de incapacidade entre pessoas jovens. Veja também o nosso guia completo sobre dor crônica.
Neste artigo, vou te explicar o que diferencia a enxaqueca crônica da episódica, quais são os gatilhos, como é feito o diagnóstico e quais tratamentos a ciência moderna oferece.
📖 Leitura essencial: se você ainda não sabe se tem enxaqueca crônica ou outro tipo de enxaqueca, comece pelo guia completo Enxaqueca: o que é, tipos, sintomas e tratamento, onde explico todos os subtipos e como diferenciá-los.
O que é enxaqueca crônica?

A enxaqueca é uma condição neurológica em que o cérebro reage de forma exagerada a certos estímulos. Na forma episódica, as crises acontecem menos de 15 dias por mês. Quando ultrapassam esse limiar por mais de 3 meses, chamamos de enxaqueca crônica[2].
Pense no cérebro de quem tem enxaqueca como um alarme ultra-sensível. Estímulos que outras pessoas nem percebem, uma mudança no clima, um cheiro forte, uma noite mal dormida, podem disparar o alarme. Na forma crônica, esse alarme está disparando quase todos os dias.
Sintomas

Dor de cabeça pulsátil: geralmente de um lado, com intensidade moderada a forte.
Náusea e vômito: são companheiros frequentes das crises.
Sensibilidade à luz e ao som: a famosa fotofobia e fonofobia. Durante a crise, a pessoa precisa ficar em ambiente escuro e silencioso.
Piora com atividade física: caminhar, subir escadas ou até abaixar a cabeça intensifica a dor.
Aura: em alguns casos, a crise é precedida por sintomas visuais (pontos brilhantes, linhas em zigue-zague), sensitivos (formigamento) ou de linguagem. Quando a aura está presente, chamamos de enxaqueca com aura.
Entre 15% e 25% das pessoas com enxaqueca crônica também apresentam aura, sintomas visuais ou sensoriais que antecedem a dor. Saiba mais sobre enxaqueca com aura.
Gatilhos comuns

Cada pessoa tem seus gatilhos, identificá-los é parte essencial do tratamento:
- Alterações no sono: dormir de menos ou de mais. Pessoas com enxaqueca crônica têm taxas significativamente maiores de distúrbios do sono e de apneia do sono que pessoas com enxaqueca episódica[1].
- Estresse e ansiedade: e também o “alívio do estresse” (enxaqueca de fim de semana).
- Alterações hormonais: menstruação, pílula anticoncepcional, menopausa.
- Alimentação: jejum prolongado, álcool (especialmente vinho tinto), cafeína em excesso.
- Mudanças climáticas: frentes frias, mudanças de pressão atmosférica.
- Estímulos sensoriais: cheiros fortes, luzes intensas, ruído excessivo.
Uso excessivo de analgésicos: o vilão silencioso
Um dos maiores problemas na enxaqueca crônica é a cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Quando analgésicos ou triptanos são usados mais de 10-15 dias por mês, o cérebro se adapta e começa a “pedir” mais medicamento, criando um ciclo vicioso em que o remédio que deveria curar passa a causar mais dor[2].
Se você toma analgésico para dor de cabeça mais de 2 vezes por semana, é hora de repensar o tratamento. A solução não é tomar mais, é prevenir.
É comum confundir enxaqueca crônica com cefaleia tensional crônica, a diferenciação é clínica e exige um olhar cuidadoso, já que muitos pacientes têm os dois tipos simultaneamente.
Tratamento

Tratamento preventivo (o mais importante)
O foco do tratamento da enxaqueca crônica é a prevenção, reduzir a frequência e a intensidade das crises[2]. As opções incluem:
Medicamentos preventivos: betabloqueadores (propranolol), antidepressivos (amitriptilina, venlafaxina), anticonvulsivantes (topiramato, valproato). São tomados diariamente e levam semanas para fazer efeito. O topiramato tem boa evidência de eficácia tanto na enxaqueca episódica quanto na crônica[3].
Anticorpos monoclonais anti-CGRP: classe mais moderna de tratamentos, erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe. São injeções mensais ou trimestrais com alta eficácia e poucos efeitos colaterais. Em ensaio randomizado de fase 2, o erenumabe reduziu significativamente os dias mensais de enxaqueca em pacientes com enxaqueca crônica[4]. Representam uma revolução no tratamento.
Toxina botulínica (botox): aprovada especificamente para enxaqueca crônica. Injeções a cada 3 meses em pontos específicos da cabeça e pescoço. Os ensaios PREEMPT mostraram redução significativa no número de dias de dor de cabeça em comparação ao placebo[5].
Tratamento das crises
Para as crises que ainda acontecem: triptanos (sumatriptano, rizatriptano), anti-inflamatórios e, em casos selecionados, medicações de resgate. O importante é usar o mínimo necessário para evitar a cefaleia por abuso.
Abordagem multidisciplinar
Manejo do estresse, higiene do sono, exercício aeróbico regular e acompanhamento psicológico (terapia cognitivo-comportamental) são componentes fundamentais do tratamento.
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Quando procurar um especialista
Se suas dores de cabeça estão ficando mais frequentes, se você está tomando analgésicos mais de 2 vezes por semana, se a dor está afetando seu trabalho e sua vida social, procure um especialista. A enxaqueca crônica tem tratamento eficaz e você não precisa aceitar viver com dor.
Como identificar a enxaqueca crônica no dia a dia
Muita gente convive anos com enxaqueca crônica sem saber o nome do problema. A pessoa acha que tem “dor de cabeça forte”, toma remédio, melhora por algumas horas, e a dor volta. É como apagar um incêndio com um copo d’água: parece que resolveu, mas a brasa continua ali embaixo. O primeiro passo para sair desse ciclo é reconhecer o padrão.
Um bom exercício é pegar um calendário e marcar em vermelho cada dia que você teve dor de cabeça no último mês, mesmo que tenha sido leve. Se forem mais de 15 dias marcados, e isso se repete há pelo menos 3 meses, estamos falando de enxaqueca crônica. Também vale anotar em quantos desses dias você precisou tomar algum analgésico ou triptano.
O diário da dor de cabeça
O diário da dor é uma ferramenta simples e poderosa. Em uma folha de papel, em um caderninho ou em um aplicativo no celular, registre todo dia: horário do início, intensidade de 0 a 10, localização, sintomas associados (náusea, sensibilidade à luz, aura), medicação que usou e, se conseguir identificar, o possível gatilho. Em 30 dias você terá um mapa precioso da sua enxaqueca, que facilita muito a conduta do especialista em dor.
Caso hipotético: a rotina de Maria
Maria tem 38 anos, é professora e mãe de dois filhos. Há cinco anos convive com enxaqueca crônica. Acorda várias vezes na semana já com a cabeça latejando, toma um analgésico antes mesmo do café da manhã e segue para o trabalho. No meio da aula, precisa escurecer a sala porque a luz incomoda. À noite, dorme mal, e o ciclo recomeça. Maria chegava a tomar 20 comprimidos de analgésico por mês, quase um por dia.
No consultório, o primeiro passo foi desmontar esse ciclo de uso excessivo de analgésicos. Maria iniciou um tratamento preventivo com um anticorpo monoclonal anti-CGRP, ajustou a higiene do sono, passou a caminhar 30 minutos por dia e começou sessões de terapia cognitivo-comportamental. Em três meses, os dias com dor caíram de 22 para 8 por mês. Em seis meses, ela voltou a planejar viagens sem medo de ter uma crise.
Erros comuns no tratamento da enxaqueca crônica
Alguns deslizes tornam a enxaqueca crônica mais difícil de controlar. Conhecê-los ajuda a evitá-los.
- Esperar a dor piorar para medicar: quanto mais cedo você toma o remédio de crise, melhor ele funciona. Esperar “para ver se passa” costuma transformar uma crise de 2 horas em um dia inteiro travado.
- Tomar o mesmo analgésico todos os dias: alívio momentâneo que alimenta a cronificação. É a cilada do uso excessivo de medicação, aquela cefaleia de rebote que vira um segundo problema dentro da enxaqueca crônica.
- Parar o tratamento preventivo assim que melhora: o preventivo precisa de 2 a 3 meses para mostrar todo o efeito, e costuma ser mantido por pelo menos 6 a 12 meses antes de qualquer tentativa de suspensão.
- Ignorar sono, alimentação e estresse: nenhum remédio, por mais moderno que seja, sustenta o resultado se a base de hábitos está desorganizada.
O que esperar do tratamento ao longo do tempo
Uma dúvida frequente no consultório é: “doutor, vou ficar sem dor para sempre?”. A resposta mais honesta é que o objetivo do tratamento da enxaqueca crônica não é eliminar totalmente a dor, mas devolver qualidade de vida. Em termos práticos, consideramos um ótimo resultado quando os dias de dor caem pela metade, a intensidade diminui e a pessoa deixa de precisar cancelar compromissos.
Nos primeiros 30 dias, geralmente observamos redução da intensidade das crises. Entre 60 e 90 dias, os dias com dor começam a diminuir. Do terceiro ao sexto mês, a maioria dos pacientes consegue retomar a rotina de forma mais leve. Pense no tratamento como uma maratona, não como uma corrida de 100 metros.
Sinais de alerta que pedem avaliação urgente
Nem toda dor de cabeça é enxaqueca. Alguns sinais pedem avaliação médica rápida, às vezes em pronto-socorro:
- Dor de cabeça súbita e muito intensa, como se fosse a pior da vida.
- Dor de cabeça associada a febre, rigidez na nuca, confusão mental, fraqueza em um lado do corpo ou dificuldade para falar.
- Dor que piora progressivamente ao longo de dias ou semanas, sem padrão de crise.
- Primeira dor de cabeça muito forte depois dos 50 anos.
- Dor que piora com esforço, tosse ou mudança de posição.
Esses sinais não costumam ser de enxaqueca e merecem investigação para descartar causas secundárias.
Referências científicas
- Buse DC, Rains JC, Pavlovic JM, et al. Sleep disorders among people with migraine: results from the Chronic Migraine Epidemiology and Outcomes (CaMEO) Study. Headache. 2019;59(1):32-45. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30381821/
- Ornello R, Caponnetto V, Ahmed F, et al. Evidence-based guidelines for the pharmacological treatment of migraine, summary version. Cephalalgia. 2025;45(4):3331024251321500. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40277321/
- Silberstein SD. Topiramate in migraine prevention: a 2016 perspective. Headache. 2017;57(1):165-178. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27902848/
- Tepper S, Ashina M, Reuter U, et al. Safety and efficacy of erenumab for preventive treatment of chronic migraine: a randomised, double-blind, placebo-controlled phase 2 trial. Lancet Neurol. 2017;16(6):425-434. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28460892/
- Dodick DW, Turkel CC, DeGryse RE, et al. OnabotulinumtoxinA for treatment of chronic migraine: pooled results from the double-blind, randomized, placebo-controlled phases of the PREEMPT clinical program. Headache. 2010;50(6):921-936. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20487038/
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Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal , CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.