Enxaqueca: O Que É, Tipos, Sintomas e Tratamento

enxaqueca 4 fases da crise de enxaqueca

“Enxaqueca não é frescura. É uma doença neurológica real, e tem tratamento.”

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Dr. Ney Leal

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Se você tem dor de cabeça que te derruba, daquelas que te obriga a apagar a luz, deitar no escuro e cancelar o dia, provavelmente não é uma dor de cabeça comum. Pode ser enxaqueca. A enxaqueca afeta cerca de 15% da população mundial e está entre as principais causas de incapacidade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde[1]. E, ainda assim, muita gente convive com ela por anos sem diagnóstico certo nem tratamento adequado.

Neste artigo, vou te explicar o que é enxaqueca, os tipos, como reconhecer uma crise, por que ela acontece e quais tratamentos realmente funcionam.

O que é enxaqueca?

Enxaqueca é uma doença neurológica. Tecnicamente, é uma cefaleia primária de origem neurovascular, o que significa que ela nasce de uma interação entre o cérebro e os vasos sanguíneos que o envolvem[2]. Não é “dor de cabeça forte”. Não é frescura. Não é falta de força de vontade. É uma condição crônica, como asma ou hipertensão, que tem diagnóstico, tratamento e precisa ser levada a sério.

Pense em um alarme de incêndio com o sensor ultra sensível. Um cigarro aceso a três quartos de distância já faz ele disparar. O cérebro de quem tem enxaqueca funciona assim: estímulos que outras pessoas nem percebem, como uma mudança no tempo, um cheiro de perfume no elevador ou uma noite mal dormida, bastam para disparar uma crise.

A diferença para a “dor de cabeça comum” (cefaleia tensional) está em vários detalhes: a enxaqueca costuma ser latejante, pega só um lado da cabeça, vem acompanhada de enjoo, de incômodo com luz e som, e piora quando a pessoa se movimenta. Vou entrar em cada um desses pontos ao longo do texto.

Quem tem enxaqueca?

Os números são impressionantes:

Se a sua mãe, o seu pai ou a sua avó tinham “dor de cabeça de ficar no escuro”, provavelmente era enxaqueca. E provavelmente você herdou um cérebro com o mesmo alarme sensível.

As 4 fases de uma crise de enxaqueca

Muita gente acha que enxaqueca é só “a dor”. Na verdade, a crise tem até 4 fases, e reconhecer as primeiras pode mudar completamente o tratamento[2]. Quanto mais cedo a pessoa percebe que a crise está chegando, mais chance de abortar antes que ela vire um dia perdido.

Pródromo

Essa é a fase silenciosa, que pode começar de algumas horas até 2 dias antes da dor. Os sinais mais comuns são:

Quem presta atenção aprende a reconhecer o próprio pródromo. E quem reconhece consegue agir antes.

Aura

Nem todo mundo tem. Cerca de 25% das pessoas com enxaqueca têm aura, e ela costuma durar entre 20 e 60 minutos antes da dor começar. Os sintomas mais clássicos são visuais: pontos brilhantes, linhas em zigue-zague, perda de parte do campo de visão. Mas também podem ser sensitivos (formigamento em um lado do rosto ou do braço) ou de fala (dificuldade de encontrar palavras).

Se você tem aura, vale conhecer os detalhes da enxaqueca com aura em um post específico sobre o tema.

Fase de dor

Esta é a fase que todo mundo reconhece. Sem tratamento, pode durar de 4 a 72 horas. É a dor latejante, geralmente de um lado, que piora com movimento e se intensifica em ambientes iluminados ou barulhentos.

Pós-dromo

É a famosa “ressaca da enxaqueca”. Depois que a dor vai embora, muita gente ainda fica 1 ou 2 dias com fadiga, lentidão de raciocínio, humor alterado, sensação de estar “amassado”. É o cérebro se recuperando da tempestade.

Sintomas da enxaqueca

enxaqueca sintomas checklist

Nem toda dor de cabeça é enxaqueca. Para a gente pensar em enxaqueca, alguns sintomas são característicos:

Se você identifica vários desses sintomas na sua dor de cabeça, provavelmente está lidando com enxaqueca.

Tipos de enxaqueca

enxaqueca tipos subtipos

A enxaqueca não é uma doença única. Existem vários subtipos, e conhecer o seu ajuda a escolher o melhor tratamento.

Enxaqueca sem aura

É a forma mais comum, respondendo por cerca de 75% dos casos. A dor aparece sem aviso visual prévio. Tem todas as características que descrevi acima: pulsátil, unilateral, com náusea, fotofobia e fonofobia.

Enxaqueca com aura

Corresponde a cerca de 25% dos casos. Antes da dor, a pessoa tem sintomas neurológicos transitórios, geralmente visuais, que duram entre 5 e 60 minutos. Leia o post completo sobre enxaqueca com aura.

Enxaqueca crônica

Quando a pessoa tem dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, por pelo menos 3 meses seguidos, e pelo menos 8 desses dias têm características de enxaqueca, a gente chama de enxaqueca crônica. É uma forma mais grave, que exige abordagem específica, incluindo tratamentos preventivos como toxina botulínica e anticorpos anti CGRP[3]. Para saber mais, leia o post completo sobre enxaqueca crônica.

Enxaqueca menstrual

Muitas mulheres notam que as crises acontecem especificamente em torno da menstruação, entre 2 dias antes e 3 dias depois do início do fluxo. A queda brusca de estrogênio é o gatilho.

Enxaqueca vestibular

Aqui o sintoma dominante é a vertigem. A pessoa pode ter crises de tontura intensa, com ou sem dor de cabeça, e muitas vezes passa anos indo ao otorrino antes de descobrir que o problema é neurológico.

Enxaqueca hemiplégica

É uma forma rara e de origem genética, em que a crise vem acompanhada de fraqueza em um lado do corpo, como se fosse um AVC. Precisa de avaliação cuidadosa porque os sintomas se confundem com outras condições sérias.

Outras formas

Existem ainda a enxaqueca retiniana (com perda de visão em um olho), a do tronco encefálico (com vertigem, zumbido, alteração de fala) e a oftalmoplégica (com paralisia de nervos dos movimentos oculares). São raras e precisam de investigação especializada.

Por que a enxaqueca acontece? Causas e gatilhos

enxaqueca gatilhos causas

A enxaqueca é, no fundo, uma disfunção de regulação do sistema nervoso. O cérebro de quem tem enxaqueca é mais sensível a variações, e responde a elas liberando substâncias inflamatórias em torno dos vasos sanguíneos da cabeça. Uma dessas substâncias, o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), é um dos principais atores dessa tempestade[2]. Sabendo disso, a medicina criou medicamentos que bloqueiam o CGRP, e isso revolucionou o tratamento nos últimos anos[4].

Agora, o componente genético é inegável. Se os seus pais tinham enxaqueca, a chance de você ter é muito maior. O que a genética te dá não é a crise pronta, é o “terreno fértil”. Os gatilhos, esses sim, ativam a crise num cérebro já predisposto.

Os gatilhos mais comuns são:

Cada pessoa tem um perfil próprio. Uma paciente minha só tem crise quando come chocolate e bebe vinho no mesmo dia. Outro, só quando dorme menos de 6 horas duas noites seguidas. Descobrir o seu perfil é parte do tratamento.

Como é feito o diagnóstico?

Boa notícia: o diagnóstico da enxaqueca é clínico. Ou seja, é feito pela conversa do médico com o paciente e pelo exame neurológico, seguindo os critérios da ICHD-3 (Classificação Internacional das Cefaleias, 3ª edição)[5]. Não precisa de ressonância magnética nem de tomografia na maioria dos casos.

Exames de imagem são indicados quando aparecem sinais de alerta ou quando o padrão da dor muda de forma importante. Fazer ressonância em toda dor de cabeça é caro, gera ansiedade desnecessária e muitas vezes encontra “achados incidentais” que não explicam a dor.

Uma ferramenta simples e poderosa é o diário de cefaleia. Anote durante pelo menos 2 meses: quando começou, quanto durou, a intensidade (de 0 a 10), os sintomas associados, o que tomou, o que comeu e bebeu, como estava o sono, o estresse e o ciclo menstrual. Com esse diário na mão, o médico consegue identificar padrões e gatilhos que nenhum exame revelaria.

Tratamento da enxaqueca: o que realmente funciona

O tratamento da enxaqueca tem dois grandes pilares: tratar a crise quando ela acontece e prevenir novas crises. Os dois caminhos caminham juntos.

Tratamento da crise (abortivo)

O objetivo aqui é interromper a crise o mais rápido possível, antes que ela se instale completamente. Quanto mais cedo a medicação é tomada, melhor o resultado[6].

Atenção para o erro mais comum: usar analgésico todo dia ou quase todo dia. Isso é o caminho direto para a cefaleia por abuso de medicação, em que o próprio remédio vira causa da dor. A regra de ouro: analgésicos e triptanos não devem ser usados em mais de 10 dias por mês.

Tratamento preventivo

Quando indicar? Quando a pessoa tem 4 ou mais crises por mês, quando as crises atrapalham muito a vida mesmo sendo menos frequentes, ou quando os remédios da crise não funcionam direito.

Opções clássicas: betabloqueadores (propranolol), topiramato, amitriptilina, flunarizina e candesartana.

Opções modernas: anticorpos monoclonais anti CGRP (erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe, eptinezumabe), aplicados por injeção mensal ou trimestral, com alta eficácia e poucos efeitos colaterais[4]. E a toxina botulínica, aplicada em pontos específicos a cada 3 meses, indicação específica para enxaqueca crônica.

Tratamento não farmacológico (igualmente importante)

Enxaqueca e outras dores de cabeça: como diferenciar

enxaqueca comparação cefaleia tensional cefaleia em salvas

Uma das perguntas mais frequentes que eu escuto é: “Doutor, como eu sei se é enxaqueca mesmo ou é outra coisa?”. A tabela abaixo resume as diferenças entre as três dores de cabeça primárias mais comuns:

CaracterísticaEnxaquecaCefaleia tensionalCefaleia em salvas
LocalizaçãoUm lado (geralmente)Dos dois lados, em “aperto”Atrás de um olho
QualidadePulsátil, latejantePressão, apertoEm punhalada, muito intensa
Duração4 a 72 horas30 min a 7 dias15 min a 3 horas
Sintomas associadosNáusea, fotofobia, fonofobiaNenhum ou muito levesLacrimejar, congestão nasal do lado da dor
Piora com movimentoSimNãoPessoa fica agitada

A principal confusão acontece com a cefaleia tensional, porque é muito mais comum no dia a dia. A diferença está justamente na qualidade da dor e nos sintomas acompanhantes: cefaleia tensional é uma pressão dos dois lados, sem náusea, sem fotofobia importante. Enxaqueca é aquela dor que te derruba.

Bandeiras vermelhas: quando procurar médico com urgência

A grande maioria das dores de cabeça é benigna, inclusive a enxaqueca. Mas existem sinais que exigem avaliação médica imediata, porque podem indicar algo mais grave:

Se você tem algum desses sinais, procure atendimento hoje, não deixe para depois. Na dúvida, sempre procure um médico especialista em dor para uma avaliação cuidadosa.

Conclusão

A enxaqueca não é frescura, não é fraqueza e não é “só uma dor de cabeça”. É uma doença neurológica real, com mecanismos bem estudados, com critérios diagnósticos claros e, o mais importante, com tratamentos modernos que funcionam. Ninguém precisa aceitar viver com uma dor que derruba o dia, o trabalho e os planos.

Dor crônica tem tratamento. Informação é o primeiro passo.

Referências científicas

  1. GBD 2016 Headache Collaborators. Global, regional, and national burden of migraine and tension-type headache, 1990-2016: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. Lancet Neurol. 2018;17(11):954-976. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30353868/
  2. Ashina M. Migraine. N Engl J Med. 2020;383(19):1866-1876. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33211930/
  3. Ornello R, Caponnetto V, Ahmed F, et al. Evidence-based guidelines for the pharmacological treatment of migraine, summary version. Cephalalgia. 2025;45(4):3331024251321500. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40277321/
  4. Charles A, Pozo-Rosich P. Targeting calcitonin gene-related peptide: a new era in migraine therapy. Lancet. 2019;394(10210):1765-1774. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31668411/
  5. Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018;38(1):1-211. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29368949/
  6. Ailani J, Burch RC, Robbins MS; Board of Directors of the American Headache Society. The American Headache Society Consensus Statement: Update on integrating new migraine treatments into clinical practice. Headache. 2021;61(7):1021-1039. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34160823/

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Artigo escrito pelo Dr. Ney Leal , CRM RS 27065 | RQE Anestesiologia 17031 | RQE Dor 41074. Médico anestesista especialista em Tratamento da Dor, SINDOR – Porto Alegre, RS. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.

Perguntas frequentes sobre enxaqueca

Não existe cura definitiva, mas existe controle excelente. A enxaqueca é uma doença neurológica crônica, como hipertensão ou asma, e o objetivo do tratamento é reduzir a frequência, a intensidade e a duração das crises a ponto de devolver a qualidade de vida. Com diagnóstico correto e plano adequado, a maioria dos pacientes consegue viver bem.
Sim, o componente genético é forte. Cerca de 60 a 70% das pessoas com enxaqueca têm algum parente próximo com o mesmo problema. O que se herda não é a crise pronta, mas uma predisposição do sistema nervoso a reagir de forma exagerada a certos estímulos.
Pode em crises leves e esporádicas, principalmente anti inflamatórios como ibuprofeno ou naproxeno. O problema é usar todo dia ou quase todo dia. Mais de 10 dias por mês de analgésico pode gerar a cefaleia por abuso de medicação, em que o remédio vira causa da dor. Se você está tomando analgésico mais de 2 vezes por semana, é hora de repensar o tratamento com um médico.
A dor de cabeça comum, chamada de cefaleia tensional, costuma ser uma pressão leve dos dois lados da cabeça, sem outros sintomas. A enxaqueca tipicamente é uma dor latejante, geralmente de um lado, moderada a forte, que vem acompanhada de náusea, sensibilidade à luz e ao som, e piora quando a pessoa se movimenta. Enxaqueca derruba o dia.
Existe um aumento pequeno, mas real, do risco de AVC isquêmico em pessoas com enxaqueca com aura, especialmente em mulheres jovens que fumam ou usam anticoncepcional combinado. Por isso, mulheres com enxaqueca com aura precisam conversar com o ginecologista sobre a melhor escolha de contraceptivo. Em quem não tem aura, o risco é praticamente o mesmo da população geral.
Muitas mulheres melhoram da enxaqueca durante a gravidez, por causa da estabilidade hormonal. Quando for necessário tratar, o paracetamol é considerado a opção mais segura nos três trimestres. Triptanos e anti inflamatórios têm restrições e precisam de avaliação médica. Nunca se automedique na gestação: sempre converse com o obstetra ou com um especialista em dor.
Sem tratamento, uma crise pode durar de 4 a 72 horas. Com medicação tomada no início da crise, esse tempo cai bastante. Por isso a regra de ouro do tratamento da crise é agir cedo. Quanto mais a pessoa espera para tomar a medicação, mais difícil fica abortar a crise.
Em algumas pessoas, sim. Os gatilhos alimentares mais comuns são queijos envelhecidos, chocolate, vinho tinto, embutidos, adoçantes e alimentos com glutamato. Mas cada pessoa tem um perfil próprio. O jejum prolongado também é um gatilho clássico. A melhor forma de descobrir seus gatilhos pessoais é manter um diário de cefaleia por alguns meses.
Em geral, não. A enxaqueca é uma condição funcional, e a grande maioria dos pacientes não desenvolve lesão estrutural. Alguns estudos mostram pequenas alterações na substância branca em exames de imagem de pessoas com enxaqueca com aura de longa data, mas essas alterações raramente têm repercussão clínica. O que pode trazer problemas é deixar a doença sem tratamento por anos.
Procure um especialista se você tem crises frequentes (4 ou mais por mês), se a dor está afetando seu trabalho e sua vida, se os remédios não funcionam bem, se está tomando analgésico mais de 2 vezes por semana ou se o padrão da dor mudou. E procure com urgência se tiver dor muito intensa de início súbito, com febre, com fraqueza ou alteração de fala, ou depois dos 50 anos pela primeira vez.

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